Maio 28, 2008

Acadêmico inglês diz que ricos têm QI mais alto



A pequena proporção de estudantes de classe média baixa em universidades renomadas é o "resultado natural de uma diferença de QI entre classes sociais", afirma o acadêmico inglês Bruce Charlton na edição desta quinta-feira da revista especializada em educação "Times Higher Education".

"O governo britânico gastou tempo e esforço em afirmar que as universidades, especialmente Oxford e Cambridge, estariam excluindo pessoas de classes sociais mais baixas e privilegiando as de classes mais altas", disse o professor.

"No entanto, neste debate um fato vital foi esquecido: classes sociais mais altas têm uma média de QI maior do que as classes baixas", afirmou Charlton em artigo publicado na revista.

Segundo o acadêmico, professor de psiquiatria evolutiva na Universidade de Newcastle, na Inglaterra, a dominação das classes altas é "natural" e uma questão de "mérito".

"A distribuição desigual de classes observada em universidades renomadas, comparada com a população geral, dificilmente acontece devido a preconceito ou corrupção no processo de admissão. Ao contrário, o padrão observado é o resultado natural do mérito", escreveu Charlton no artigo.

Críticas

A afirmação provocou reações no setor educacional no país. Em um comunicado, a NUS (União Nacional dos Estudantes, na sigla em inglês) afirmou que os argumentos de Charlton são "equivocados, irresponsáveis e insultantes".

"Certamente a desigualdade social define a vida das pessoas antes mesmo de entrarem para a universidade, mas o setor de ensino superior não pode ser absolvido de sua responsabilidade de garantir que estudantes de todos os níveis sociais tenham a oportunidade de desenvolver seu potencial", disse Gemma Tumelty, presidente da NUS.

Outra crítica, também publicada pela revista, foi do ministro do Ensino Superior Bill Rammell. Segundo ele, os argumentos de Bruce Charlton dão um tom de que "as pessoas devem saber seu lugar".

"Apesar de muitos jovens pouco privilegiados conquistarem as qualificações para chegar ao ensino superior, eles ainda ficam atrás dos colegas mais privilegiados. Portanto, é vital que continuemos a preparar e apoiar os estudantes de maneira adequada para que cheguem à universidade", disse o ministro à revista.

Robert Sternberg, diretor de artes e ciências da Universidade de Tufts, admitiu a relação entre o QI e a questão social, mas não concorda com a posição de Charlton.

"Certamente há uma correlação entre o QI e a classe social. Pessoas de classes mais altas têm vantagens educacionais, sociais e econômicas e as transmitem aos seus filhos", disse ele.

Ao adotar o sistema que Charlton recomenda, afirmou, "garantimos que as classes mais altas continuarão a transmitir estas vantagens e iremos congelar aqueles de classes mais baixas".

"Desta forma, criaremos profecias que se cumprem sozinhas", disse Sternberg.

Fonte: BBC Brasil

Maio 26, 2008

Homofobia na Escola


Deco Ribeiro

Nikky (ela prefere usar o apelido) se orgulhava de ser aluna de uma escola particular tida como ‘liberal’ em Santos. Não precisava usar uniforme completo, podia usar piercings e ela até já foi pra escola de moicano, um penteado punk com pontas de um palmo de altura. Casais de namorados podiam se beijar à vontade, ao contrário de outras escolas, e ela não pensou duas vezes antes de beijar sua namorada no pátio do colégio. A reação foi devastadora. “Um amigo meu veio me dizer que achava que eu quis aparecer, que se eu queria ser lésbica, que fosse entre quatro paredes. Que as pessoas não eram obrigadas a ver isso”.

Essa intolerância é enfrentada por milhares de alunos e alunas homossexuais da rede de ensino todos os dias. Parte dessa intolerância acaba resultando em violência escolar. “Eu sofri agressões físicas, verbais e ‘tecnológicas’,” desabafa Augusto Kobayashi, aluno do ensino médio e assumidamente homossexual. “Levava socos, chutes, cotovelatas, joelhadas e empurrões.” Augusto ainda diz que o grupo de meninos que o importunava, não satisfeito com as agressões físicas e verbais, espalhavam pelos computadores da escola imagens dele caracterizado como travesti e com as unhas pintadas de rosa.

Fenômeno masculino
Segundo pesquisa da UNESCO divulgada em 2004, 28% dos alunos do ensino fundamental e médio do estado de São Paulo não gostariam de ter homossexuais como colegas de classe. Essa proporção aumenta se enfocarmos apenas os alunos do sexo masculino: cerca de 41% dos meninos não toleram colegas gays ou lésbicas.

No livro “Juventude e Sexualidade”, resultado de uma pesquisa da UNESCO sobre AIDS, Drogas e Violência das Escolas, fica claro que a discriminação contra homossexuais (também chamada de homofobia), ao contrário das de outros tipos, é não apenas mais abertamente assumida, pelos meninos, como é valorizada por eles, o que sugere um padrão de afirmação de masculinidade. “A homofobia pode expressar-se numa espécie de terror de não ser mais considerado como um homem de verdade”, afirmam as pesquisadoras.

Segundo a mesma pesquisa, “bater em homossexuais” foi classificada pelas meninas como a terceira forma de violência mais grave, atrás apenas de “atirar em alguém” e “estuprar”, enquanto para os meninos ela ocupa apenas a sexta posição, atrás de “usar drogas” ou simplesmente “andar armado”.

Essa conclusão encontra eco entre outros pesquisadores e profissionais que lidam com jovens, dentro e fora do Brasil. O holandês Theo van der Meer, que entrevistou mais de 300 agressores de homossexuais condenados, concluiu que todos são homens e sofrem de uma auto-estima baixa ou exageradamente alta. Para esses jovens, bater em homossexuais – que eles consideram fracos e afeminados – seria como um ritual de passagem, uma afirmação de força. Murilo Moura Sarno, médico do programa da Saúde da Família de São Paulo e que conversa com alunos da rede pública sobre sexualidade, já presenciou esse potencial de agressão. “Um aluno da oitava série afirmou categoricamente que se encontrasse um casal gay num shopping, iria esperar na garagem com um bastão de ferro para quebrar a cabeça dos dois até matar o casal,” afirmou o médico. “E foi apoiado pelos outros amigos”.

Professores preconceituosos
João Augusto, aluno homossexual de um cursinho pré-vestibular em São Paulo, se sente extremamente ofendido com as diversas piadinhas feitas pelos professores – quase todas tendo gays como alvo. “Como fazer com que essas piadinhas acabem, sem me expôr?”, questiona ele. “O que fazer quando as pessoas que deveriam nos proteger em sala são as que mais agridem?”

Segundo a UNESCO, isso é normal. “Muitas vezes os professores não apenas silenciam, mas colaboram ativamente na reprodução de tal violência,” afirma a pesquisa. Os dados mostraram que apenas 2,3% dos professores do estado não gostariam de ter alunos homossexuais. “Mas alguns consideram que as brincadeiras não são manifestações de agressão,” ressalta a pesquisa, “naturalizando e banalizando expressões de preconceito.”

Todos os especialistas consultados concordam que o silêncio é a pior forma de se lidar com o assunto. “Precisamos de intervenções mais sérias nas escolas,” sugere o médico Murilo Sarno, “Primeiro sobre cidadania, depois sobre sexualidades, todas elas.” A conclusão da UNESCO vai além e pede por investimentos em uma “cultura de convivência com a diversidade” que até pode se valer da informação, mas que deve se utilizar, principalmente, do “debate e o questionamento das irracionalidades que sustentam discriminações.”

Os alunos fazem coro. “Falta diálogo,” diz Nikky. “Na minha classe um certo professor se referia às lesbicas como 'sapatonas machos e etc'. Um dia cheguei pra ele em particular e disse que aquilo me ofendia. Nunca mais ele falou.” Augusto acha que a escola simplesmente não enfoca o assunto. “Assim como temos aulas de biologia e história, deveriam reservar algumas aulas para tratar de cidadania, direitos e deveres, promover um debate entre os alunos, levar palestrantes, mostrar que os homossexuais não têm nada de diferente. As pessoas tendem a ter preconceito daquilo que nunca tiveram contato e esse debate ajudaria e muito no combate à discriminação contra os homossexuais e contra todos os outros tipos de minorias.”

Depoimentos:
Quanto ao Preconceito Sofrido Pelos Homossexuais:

"O que me fez sofrer mais foi quando descobri que minha amiga tem preconceitos com lésbicas." (M.C., 14 anos), desabafando sua dor.

"Ao tocar o alarme do intervalo do meu colégio, quando fui me direcionando para as escadas levei um chute forte, senti um choque em meu corpo." (R.C.L., 15 anos)

"Toda vez que passo por um grupo de pessoas em meu colégio, sou xingado, abusado, e desmoralizado." (B., 15 anos)


Quanto a "O que fazer para diminuir o preconceito":

"Acho que primeiramente começamos influenciando aos nossos amigos que têm preconceito." (L. P., 17 anos)

"Acho que conversa, campanhas.... tudo isso ajuda muito no combate ao preconceito." (B. K., 17 anos)

"Sinceramente, não sei o que fazer, mas acho que temos que ter em mente que são todos normais." (K., 15 anos)

Quanto ao "choque" ao saber que seu amigo era gay ou lésbica:

"Foi tudo muito normal, eu não imaginaca isso dele, mas já que é, num posso fazer nada. Eu gosto dele assim mesmo." (P.V., 14 anos)

"Eu nunca imaginava isso do meu amigo, mas estou lhe dando o maior apoio, a escolha é dele, a vida é dele, não tenho porque ficar sem falar com ele." (F.A., 18 anos)

"Eu ficava tirando onda com a cara dele, dizendo: 'R., nunca pude imaginar isso de você...' Mas foi só arriação mesmo, ando muito com ele e o ajudo nos podres dele... ." (T., 16 anos)

Sobre as agressões:

"Já vi muitas, inclusive com minha amiga que é lésbica, infelizmente isso acontece." (P.M., 14 anos)

"Eu já vi meu amigo sendo agredido por um menino, fui correndo chamar uma pessoa para ajudá-lo, tive pena dele." (I., 15 anos)

"Ainda não presencicei nada, e espero não presenciar." (I. C., 16 anos)

Renato entrevistou meninos e meninas, hetero e homossexuais.



Você Sabia?

Que o comportamento homossexual é muito mais natural do que se pensa??
O famoso Dr. Kinsey, autor de "Sexual Behaviour of the Human Male" - estudo que tem fundamentado tudo o que se diz sobre sexualidade masculina desde meados do século passado - afirma em seu livro que o motivo pelo qual homofóbicos se opõe a homossexualidade é bem simples: o medo do crescimento da atividade homossexual. Conclui o Dr. Kinsey que com menos homofobia haveria muito mais homossexualidade. Ao se remover a pressão social que reprime a atração pelo mesmo sexo, o desejo homossexual cresceria e se espalharia naturalmente em larga escala.

Por outro lado, a heterossexualidade parece estar em baixa: os vultosos recursos investidos pela sociedade e a mídia na promoção da heterossexualidade (vide comerciais de cervejas a bancos) só pode levar a crer que essa é uma orientação pouco atrativa, e que a população tem que ser constantemente bombardeada com os valores heterossexuais para poder se manter nesse rumo...

Fonte:
http://www.e-jovem.com/news00.html

PAC pode agravar exploração sexual infantil



Principal vitrine do governo Lula, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) deve agravar um problema recorrente de grandes obras de infra-estrutura pelo país: a exploração sexual de crianças e adolescentes. A constatação é feita por especialistas em direitos humanos, conselheiros tutelares e ONGs, como a Andi (Agência de Notícias dos Direitos da Infância).

Em alguns locais, como Salgueiro (PE), por onde passam duas das maiores obras do PAC --a transposição do rio São Francisco e a rodovia Nova Transnordestina--, conselheiros tutelares detectaram agravamento da situação.

O governo admite a preocupação com o aumento de casos nos canteiros das obras do PAC e lançou um plano de prevenção à exploração infantil às margens da megaobra de asfaltamento da BR-163, que liga Santarém (PA) a Cuiabá (MT).

O projeto nas obras dessa BR, coordenado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, foi lançado há um ano, com atividades preventivas: divulgação do número de telefone para denúncias e fortalecimento da rede de atendimento local e das políticas sociais.

Segundo a coordenadora do programa de enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes da secretaria, Leila Paiva, existe uma preocupação do governo com projetos de desenvolvimento econômico, não só obras públicas, pois geralmente causam mais exploração.

Ana Celina Hamoy, do Cedeca (Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente) de Belém, diz que o projeto pode evitar a criação de redes de prostituição de crianças, o que, segundo ela, ocorreu na construção da hidrelétrica de Tucuruí e na instalação dos garimpos no Estado.

Para Carolina Padilha, do Instituto WCF (World Childhood Foundation) Brasil, essas redes são criadas especialmente em obras construídas longe dos grandes centros urbanos, onde há migrantes. "São homens, distantes das suas famílias, com recurso financeiro, em regiões pauperizadas, e sem opções de lazer."

Segundo ela, "a estrutura do Estado não está preparada para dar conta da novas demandas geradas". "Até ela ser organizada, a obra já terminou."

O assistente social Eduardo Chaves, do grupo Violes (Grupo de Pesquisa sobre Violência e Exploração Sexual Comercial de Mulheres, Crianças e Adolescentes) da UnB (Universidade de Brasília), concorda e diz que a exploração é muitas vezes "maquiada, para não denegrir o empreendimento financeiro".

A socióloga Marlene Vaz estuda há quase 35 anos a exploração sexual de crianças e adolescentes. Diz que o problema é histórico e que grandes obras sempre geraram aumento de casos, sobretudo por causa da pobreza. "É uma sociedade de consumo onde o tempo todo se destaca a importância de ter um celular, uma boa roupa, perfumes caros. Não há como essas meninas ignorarem isso."

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THIAGO REIS
da Agência Folha
KAMILA FERNANDES
da Agência Folha, em Fortaleza

O que muda com a reforma da língua portuguesa


As novas regras da língua portuguesa devem começar a ser implementadas em 2008. Mudanças incluem fim do trema e devem mudar entre 0,5% e 2% do vocabulário brasileiro. Veja abaixo quais são as mudanças.

HÍFEN

Não se usará mais:
1. quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em "antirreligioso", "antissemita", "contrarregra", "infrassom". Exceção: será mantido o hífen quando os prefixos terminam com r -ou seja, "hiper-", "inter-" e "super-"- como em "hiper-requintado", "inter-resistente" e "super-revista"
2. quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: "extraescolar", "aeroespacial", "autoestrada"

TREMA
Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados

ACENTO DIFERENCIAL
Não se usará mais para diferenciar:
1. "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição)
2. "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da preposição com o artigo)
3. "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de "por" e "lo")
4. "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo" (combinação da preposição com o artigo)
5. "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico - pedra) e "pera" (preposição arcaica)

ALFABETO
Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras "k", "w" e "y"

ACENTO CIRCUNFLEXO
Não se usará mais:
1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem"
2. em palavras terminados em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" -que se tornam "enjoo" e "voo"

ACENTO AGUDO
Não se usará mais:
1. nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia"
2. nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: "feiúra" e "baiúca" passam a ser grafadas "feiura" e "baiuca"
3. nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de "e" ou "i". Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem

GRAFIA
No português lusitano:
1. desaparecerão o "c" e o "p" de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como "acção", "acto", "adopção", "óptimo" -que se tornam "ação", "ato", "adoção" e "ótimo"
2. será eliminado o "h" de palavras como "herva" e "húmido", que serão grafadas como no Brasil -"erva" e "úmido"

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u321373.shtml

Contas externas pioram, déficit passa dos R$ 3 bilhoões



O ´"Sínico do Lula ainda tem corágem pra ir na tv falar que o Brasil não deve nada..."
Conta outra Lula, que a MASSA BURRA acredita, menos eu!!

O Balanço de Pagamentos brasileiro apresentou em abril déficit em conta corrente de US$ 3,310 bilhões. Um ano atrás, a conta corrente foi superavitária em US$ 1,806 bilhão. Em 12 meses, déficit foi de US$ 14,655 bilhões, ou 1,08% na relação com o Produto Interno Bruto (PIB).

De janeiro a abril, o déficit acumulado situou-se em US$ 14,068 bilhões, correspondente a 3,09% do PIB. Em mesmo período de 2007, o resultado foi superavitário em US$ 2,047 bilhões (0,49% do PIB).

Os números abrangem dados da balança comercial, da conta de serviços e das transferências unilaterais do país e foram divulgados há instantes pelo BC. A conta de transações correntes mensura o desempenho das compras e vendas de bens e serviços de um país com o exterior.

A conta corrente é formada por três itens: a balança comercial resultante de exportações e importações; a conta de serviços e rendas, que une fluxos de entradas nas diversas modalidades de empréstimos externos e de saídas para o pagamento de juros, remessas de lucros e de serviços em geral (como viagens e transportes); e as transferências unilaterais correntes, que são recursos enviados por brasileiros que moram no exterior.

O resultado de abril decorreu de saldo positivo na balança comercial no valor de US$ 1,744 bilhão em contraposição a um déficit de US$ 5,331 bilhões na conta de serviços e rendas. Houve ingresso de US$ 276 milhões nas transferências unilaterais correntes.

(Azelma Rodrigues | Valor Online)

Aprender pra que?



RUBEM ALVES, Educador diz que a escola não leva em consideração o desejo de aprender e está longe de responder às perguntas das crianças.

Rubem Alves é um crítico do sistema de ensino brasileiro. Mas suas opiniões não carregam rancor contra quem quer que seja. Para o educador e professor emérito da Unicamp, o problema da escola é que ela não leva em consideração o desejo de aprender das crianças e está respondendo às perguntas que somente os adultos acham importantes. ''Crianças fazem perguntas incríveis'', avisa. Para Alves, questionamentos como ''quem inventou as palavras?'', ou ''gato podia se chamar cavalo e cavalo se chamar gato?'', são a prova viva do interesse que todo garoto tem por conhecer o mundo. Mas essa curiosidade investigativa, que leva o aluno a estudar, está longe dos programas escolares. ''Existe uma expressão terrível na escola: grade curricular. Deve ter sido cunhada por um carcereiro'', diz. Polêmico, propõe a extinção do vestibular e sugere que o processo seletivo para as universidades aconteça através de um sorteio. Prestes a lançar mais um livro (Presente, Frases, Idéias e Sensações..., Editora Papirus), espera com a nova publicação levar ao público seus pensamentos sobre o amor e a vida. ''Nem que a obra seja lida na privada'', provoca.

ENTREVISTA DADA A REVISTA ÉPOCA.
ÉPOCA - O senhor afirma que a maioria das escolas é chata? Por quê?
Rubem Alves - Não é de hoje que a escola é chata. Ela sempre foi assim e isso acontece porque as coisas são impostas às crianças. A prova de que uma criança gosta de ir à escola é se, na hora do recreio, ela está conversando com os amigos sobre as coisas que a professora ensinou. E não se vê isso. Então fica evidente que elas gostam da escola por causa da sociabilidade, dos amiguinhos, por causa do recreio. Mas elas não estão interessadas naquilo que se ensina na escola. Você acha que um adolescente, vivendo na periferia, pode ter interesse em dígrafos (grupo de duas letras usadas para representar um único fonema)? Não tem interesse nenhum. Existe outra expressão terrível: grade curricular. Já brinquei que deve ter sido cunhada por um carcereiro. A criança está vivenciando problemas que não têm nada a ver com os assuntos das aulas. Mas os professores apenas se justificam, dizendo que o programa afirma que é aquilo que se deve ensinar e acabou. Eu diria que na escola tradicional não se leva em consideração o desejo de aprender da criança. Elas expressam isso através dos questionamentos que fazem.
ÉPOCA - Quais questionamentos?
Alves - Se você reparar, as crianças fazem perguntas incríveis para conhecer melhor o mundo. Uma delas é: ''Quem inventou as palavras?''. Há outras boas: ''Gato podia chamar cavalo e cavalo chamar gato? Por que canteiro chama canteiro? Devia chamar planteiro, que é onde ficam as plantas! Por que a chuva cai aos pinguinhos e não toda de uma vez? Se na Arca de Noé havia leões, por que eles não comeram os cabritos?'' E por aí vai. Elas estão fazendo perguntas interessantes, mas as respostas não se encontram nos programas.
ÉPOCA - Por que o modelo de educação existe há tanto tempo?
Alves - Porque existe certa presunção da nossa parte, da parte dos adultos, de que as crianças não sabem nada, de que elas são vazias. E de que nós é que temos o saber.Também achamos que só nós podemos determinar o que elas têm de aprender. Isso é o que Paulo Freire denominou de educação bancária. Você vai sempre fazendo depósitos na criança. Houve um diretor de um abrigo para crianças e adolescentes em Varsóvia chamado Janusz Korczak. No abrigo dele, eram os alunos que exerciam a disciplina. E Korczak costumava dizer: ''Vocês, professores, me dizem que é muito difícil ensinar às crianças. Estou de acordo. E vocês dizem também que é muito difícil descer às crianças. Estou em desacordo. O que é muito difícil é subir ao nível de sensibilidade e de curiosidade das crianças, ficar na ponta dos pés, falar brandamente para não machucá-las''. É por isso que a escola não muda. Porque as pessoas não estão preparadas para subir ao nível das crianças.
ÉPOCA - Há salvação para esse modelo de ensino?
Alves - Eu passei por esse modelo de escola. Outros amigos meus passaram e acho que não ficamos tão atrapalhados assim (risos). Aliás, tenho memórias muito interessantes. A escola tinha muitas coisas boas e, a despeito de tudo, a gente aprende. Mas é uma perda de tempo muito grande. As escolas estão cheias de pessoas maravilhosas, mas é tanta gente que sofre, é reprovada e repete de ano que não acredito mais nesse modelo. É preciso esquecer as maneiras tradicionais de fazer escola. Estamos tão acostumados com a idéia de que a escola tem corredor, sala, campainha, que podemos até pensar em melhorar isso, mas não pensamos que a estrutura pode ser diferente.
ÉPOCA - Então, por que as escolas não mudam?
Alves - Por uma porção de fatores. Um deles é a inércia. As pessoas se acostumam a fazer sempre a mesma coisa porque aí elas não têm trabalho. Se você tiver uma escola mais solta, nunca sabe direito o que vai acontecer, você não pode preparar a lição porque sempre o aluno pode fazer uma pergunta que você não sabe. Na escola tradicional, o professor é aquele que sabe a matéria e vai para a sala de aula acreditando nisso. Mas hoje as matérias estão todas na internet. Hoje, a função do professor é ensinar o aluno a pensar e a descobrir onde ele pode encontrar a resposta para as perguntas que ele tem. Essa é uma função nova e completamente diferente do professor. Os que estão acostumados a preparar a aula até costumam usar as fichas do ano retrasado. Dificilmente vão mudar.
ÉPOCA - Como convencer um professor a se atualizar?
Alves - Acho que muitos desses profissionais estão acordando para isso simplesmente porque não estão mais agüentando o tédio. Tenho dó dos professores. Às vezes os vejo como esses guias turísticos que vão todo dia ao mesmo monumento, levando um grupo diferente e repetindo as mesmas coisas. Isso é muito chato. Nenhuma pessoa merece viver uma vida desse jeito.
ÉPOCA - O senhor afirma, como educador, que a escola precisa dar aos alunos ferramentas para entender o mundo. O que isso quer dizer na prática?
Alves - Simplificando a minha teoria, digo que o corpo carrega duas caixas: uma de ferramentas e a outra de brinquedos. O que são ferramentas? São todos os objetos usados para fazer alguma coisa. Então, ferramentas não são fins em si mesmos. E elas são importantes porque nos dão poder. Um alicate é muito mais poderoso que meu dedo. E a primeira coisa que a escola tem de perguntar é: isso que eu estou ensinando é ferramenta para quê? Segundo: o aluno quer fazer isso? Porque não adianta você dar uma ferramenta para a pessoa, um martelo e um prego, se ela quer ser pintora. A ferramenta só tem sentido se tiver uma demanda, se eu estou querendo fazer alguma coisa. Se eu estiver interessado em plantar um jardim, vou aprender sobre as plantas, esterco e fertilizantes. O professor tem de perguntar a si mesmo isso. Se não for ferramenta, ela não vai ser guardada.
ÉPOCA - Por que não é guardada?
Alves - Se todos os reitores das nossas universidades prestassem vestibular, seriam reprovados. Porque eles esqueceram. E fizeram isso porque são burros? Não. Eles fizeram isso porque são inteligentes. Porque a memória não carrega coisas que não têm função. Também seriam reprovados os professores universitários e os dos cursinhos só passariam na própria disciplina. Eu seria reprovado. Tudo foi perdido. Já a caixa dos brinquedos está cheia de objetos que não servem para nada. Não há formas de usá-los como ferramentas. Lá estão a poesia de Fernando Pessoa, as sonatas de Mozart, as telas de Monet, pores-de-sol, beijos, perfumes, coisas que apenas nos dão felicidade. Assim se resume a educação.
ÉPOCA - Mas os alunos precisam ter conhecimentos básicos em áreas como Matemática, Biologia ou Química, não?
Alves - Para quê? Para passar no vestibular? Para esquecer tudo? Quem disse que tem de aprender isso? Por que eu tenho de aprender logaritmo neperiano? Não conheço ninguém que tenha usado isso. Se por acaso eu for precisar um dia na minha vida, estudo e aprendo. Não preciso me preocupar com isso na escola. E as pessoas não se dão conta de que todo esse conteudismo é perdido. Não sobra nada. Uma amiga minha, professora de Neuroanatomia na Unicamp, dizia que os piores alunos que ela tinha eram esses que apareciam em outdoors de primeiro lugar. Porque quando ela explica anatomia, um assunto cheio de complexidades, sempre tinha um que levantava a mão e perguntava: ''Professora, qual é a resposta certa?''. Ou seja, ele não entendia que esse negócio de ter sempre uma alternativa certa não existe. No caso do médico, com um doente terminal, o que ele faz: dá morfina ou continua com a quimioterapia? Não há resposta certa. É preciso aprender isso. E essas coisas não são ensinadas.
ÉPOCA - O senhor chegou a pregar o fim do vestibular. Por quê?
Alves - Já preguei, e quando falo nisso as pessoas acham que estou brincando. Quando eu era pró-reitor de graduação da Unicamp, queria um vestibular que avaliasse a capacidade de pensar dos alunos, e não a memória. Um professor me disse: a solução mais fácil é o sorteio. Dei uma gargalhada. Mas comecei a pensar e vi que é isso mesmo. A primeira coisa do vestibular que me morde não é decidir quem entra ou não na universidade, mas a sombra sinistra que ele lança sobre tudo o que vem antes. As escolas são orientadas para o vestibular, e os pais logo de saída querem as escolas fortes para os filhos passarem no vestibular. A primeira conseqüência de ter o sorteio é que as escolas seriam livres para ensinar. Elas não precisariam preparar os alunos para o vestibular. Então, as pessoas poderiam ouvir música, ler e fazer o que quisessem. Seria a libertação das escolas para realmente ensinar. Em segundo lugar, acabariam os cursinhos. Se tiver sorteio, ninguém pode reclamar. Sorteio é sorteio. Acabaria o sofrimento psicológico dos alunos, que têm a auto-imagem destruída. Também acabaria o conflito entre pais e filhos.
ÉPOCA - Por que o modelo de educação existe há tanto tempo?
Alves - Porque existe certa presunção da nossa parte, da parte dos adultos, de que as crianças não sabem nada, de que elas são vazias. E de que nós é que temos o saber.Também achamos que só nós podemos determinar o que elas têm de aprender. Isso é o que Paulo Freire denominou de educação bancária. Você vai sempre fazendo depósitos na criança. Houve um diretor de um abrigo para crianças e adolescentes em Varsóvia chamado Janusz Korczak. No abrigo dele, eram os alunos que exerciam a disciplina. E Korczak costumava dizer: ''Vocês, professores, me dizem que é muito difícil ensinar às crianças. Estou de acordo. E vocês dizem também que é muito difícil descer às crianças. Estou em desacordo. O que é muito difícil é subir ao nível de sensibilidade e de curiosidade das crianças, ficar na ponta dos pés, falar brandamente para não machucá-las''. É por isso que a escola não muda. Porque as pessoas não estão preparadas para subir ao nível das crianças.
ÉPOCA - Há salvação para esse modelo de ensino?
Alves - Eu passei por esse modelo de escola. Outros amigos meus passaram e acho que não ficamos tão atrapalhados assim (risos). Aliás, tenho memórias muito interessantes. A escola tinha muitas coisas boas e, a despeito de tudo, a gente aprende. Mas é uma perda de tempo muito grande. As escolas estão cheias de pessoas maravilhosas, mas é tanta gente que sofre, é reprovada e repete de ano que não acredito mais nesse modelo. É preciso esquecer as maneiras tradicionais de fazer escola. Estamos tão acostumados com a idéia de que a escola tem corredor, sala, campainha, que podemos até pensar em melhorar isso, mas não pensamos que a estrutura pode ser diferente.
ÉPOCA - Então, por que as escolas não mudam?
Alves - Por uma porção de fatores. Um deles é a inércia. As pessoas se acostumam a fazer sempre a mesma coisa porque aí elas não têm trabalho. Se você tiver uma escola mais solta, nunca sabe direito o que vai acontecer, você não pode preparar a lição porque sempre o aluno pode fazer uma pergunta que você não sabe. Na escola tradicional, o professor é aquele que sabe a matéria e vai para a sala de aula acreditando nisso. Mas hoje as matérias estão todas na internet. Hoje, a função do professor é ensinar o aluno a pensar e a descobrir onde ele pode encontrar a resposta para as perguntas que ele tem. Essa é uma função nova e completamente diferente do professor. Os que estão acostumados a preparar a aula até costumam usar as fichas do ano retrasado. Dificilmente vão mudar.
ÉPOCA - Como convencer um professor a se atualizar?
Alves - Acho que muitos desses profissionais estão acordando para isso simplesmente porque não estão mais agüentando o tédio. Tenho dó dos professores. Às vezes os vejo como esses guias turísticos que vão todo dia ao mesmo monumento, levando um grupo diferente e repetindo as mesmas coisas. Isso é muito chato. Nenhuma pessoa merece viver uma vida desse jeito.
ÉPOCA - O senhor afirma, como educador, que a escola precisa dar aos alunos ferramentas para entender o mundo. O que isso quer dizer na prática?
Alves - Simplificando a minha teoria, digo que o corpo carrega duas caixas: uma de ferramentas e a outra de brinquedos. O que são ferramentas? São todos os objetos usados para fazer alguma coisa. Então, ferramentas não são fins em si mesmos. E elas são importantes porque nos dão poder. Um alicate é muito mais poderoso que meu dedo. E a primeira coisa que a escola tem de perguntar é: isso que eu estou ensinando é ferramenta para quê? Segundo: o aluno quer fazer isso? Porque não adianta você dar uma ferramenta para a pessoa, um martelo e um prego, se ela quer ser pintora. A ferramenta só tem sentido se tiver uma demanda, se eu estou querendo fazer alguma coisa. Se eu estiver interessado em plantar um jardim, vou aprender sobre as plantas, esterco e fertilizantes. O professor tem de perguntar a si mesmo isso. Se não for ferramenta, ela não vai ser guardada.
ÉPOCA - Por que não é guardada?
Alves - Se todos os reitores das nossas universidades prestassem vestibular, seriam reprovados. Porque eles esqueceram. E fizeram isso porque são burros? Não. Eles fizeram isso porque são inteligentes. Porque a memória não carrega coisas que não têm função. Também seriam reprovados os professores universitários e os dos cursinhos só passariam na própria disciplina. Eu seria reprovado. Tudo foi perdido. Já a caixa dos brinquedos está cheia de objetos que não servem para nada. Não há formas de usá-los como ferramentas. Lá estão a poesia de Fernando Pessoa, as sonatas de Mozart, as telas de Monet, pores-de-sol, beijos, perfumes, coisas que apenas nos dão felicidade. Assim se resume a educação.
ÉPOCA - Mas os alunos precisam ter conhecimentos básicos em áreas como Matemática, Biologia ou Química, não?
Alves - Para quê? Para passar no vestibular? Para esquecer tudo? Quem disse que tem de aprender isso? Por que eu tenho de aprender logaritmo neperiano? Não conheço ninguém que tenha usado isso. Se por acaso eu for precisar um dia na minha vida, estudo e aprendo. Não preciso me preocupar com isso na escola. E as pessoas não se dão conta de que todo esse conteudismo é perdido. Não sobra nada. Uma amiga minha, professora de Neuroanatomia na Unicamp, dizia que os piores alunos que ela tinha eram esses que apareciam em outdoors de primeiro lugar. Porque quando ela explica anatomia, um assunto cheio de complexidades, sempre tinha um que levantava a mão e perguntava: ''Professora, qual é a resposta certa?''. Ou seja, ele não entendia que esse negócio de ter sempre uma alternativa certa não existe. No caso do médico, com um doente terminal, o que ele faz: dá morfina ou continua com a quimioterapia? Não há resposta certa. É preciso aprender isso. E essas coisas não são ensinadas.
ÉPOCA - O senhor chegou a pregar o fim do vestibular. Por quê?
Alves - Já preguei, e quando falo nisso as pessoas acham que estou brincando. Quando eu era pró-reitor de graduação da Unicamp, queria um vestibular que avaliasse a capacidade de pensar dos alunos, e não a memória. Um professor me disse: a solução mais fácil é o sorteio. Dei uma gargalhada. Mas comecei a pensar e vi que é isso mesmo. A primeira coisa do vestibular que me morde não é decidir quem entra ou não na universidade, mas a sombra sinistra que ele lança sobre tudo o que vem antes. As escolas são orientadas para o vestibular, e os pais logo de saída querem as escolas fortes para os filhos passarem no vestibular. A primeira conseqüência de ter o sorteio é que as escolas seriam livres para ensinar. Elas não precisariam preparar os alunos para o vestibular. Então, as pessoas poderiam ouvir música, ler e fazer o que quisessem. Seria a libertação das escolas para realmente ensinar. Em segundo lugar, acabariam os cursinhos. Se tiver sorteio, ninguém pode reclamar. Sorteio é sorteio. Acabaria o sofrimento psicológico dos alunos, que têm a auto-imagem destruída. Também acabaria o conflito entre pais e filhos.
ÉPOCA - Por que o modelo de educação existe há tanto tempo?
Alves - Porque existe certa presunção da nossa parte, da parte dos adultos, de que as crianças não sabem nada, de que elas são vazias. E de que nós é que temos o saber.Também achamos que só nós podemos determinar o que elas têm de aprender. Isso é o que Paulo Freire denominou de educação bancária. Você vai sempre fazendo depósitos na criança. Houve um diretor de um abrigo para crianças e adolescentes em Varsóvia chamado Janusz Korczak. No abrigo dele, eram os alunos que exerciam a disciplina. E Korczak costumava dizer: ''Vocês, professores, me dizem que é muito difícil ensinar às crianças. Estou de acordo. E vocês dizem também que é muito difícil descer às crianças. Estou em desacordo. O que é muito difícil é subir ao nível de sensibilidade e de curiosidade das crianças, ficar na ponta dos pés, falar brandamente para não machucá-las''. É por isso que a escola não muda. Porque as pessoas não estão preparadas para subir ao nível das crianças.
ÉPOCA - Há salvação para esse modelo de ensino?
Alves - Eu passei por esse modelo de escola. Outros amigos meus passaram e acho que não ficamos tão atrapalhados assim (risos). Aliás, tenho memórias muito interessantes. A escola tinha muitas coisas boas e, a despeito de tudo, a gente aprende. Mas é uma perda de tempo muito grande. As escolas estão cheias de pessoas maravilhosas, mas é tanta gente que sofre, é reprovada e repete de ano que não acredito mais nesse modelo. É preciso esquecer as maneiras tradicionais de fazer escola. Estamos tão acostumados com a idéia de que a escola tem corredor, sala, campainha, que podemos até pensar em melhorar isso, mas não pensamos que a estrutura pode ser diferente.
ÉPOCA - Então, por que as escolas não mudam?
Alves - Por uma porção de fatores. Um deles é a inércia. As pessoas se acostumam a fazer sempre a mesma coisa porque aí elas não têm trabalho. Se você tiver uma escola mais solta, nunca sabe direito o que vai acontecer, você não pode preparar a lição porque sempre o aluno pode fazer uma pergunta que você não sabe. Na escola tradicional, o professor é aquele que sabe a matéria e vai para a sala de aula acreditando nisso. Mas hoje as matérias estão todas na internet. Hoje, a função do professor é ensinar o aluno a pensar e a descobrir onde ele pode encontrar a resposta para as perguntas que ele tem. Essa é uma função nova e completamente diferente do professor. Os que estão acostumados a preparar a aula até costumam usar as fichas do ano retrasado. Dificilmente vão mudar.
ÉPOCA - Como convencer um professor a se atualizar?
Alves - Acho que muitos desses profissionais estão acordando para isso simplesmente porque não estão mais agüentando o tédio. Tenho dó dos professores. Às vezes os vejo como esses guias turísticos que vão todo dia ao mesmo monumento, levando um grupo diferente e repetindo as mesmas coisas. Isso é muito chato. Nenhuma pessoa merece viver uma vida desse jeito.
ÉPOCA - O senhor afirma, como educador, que a escola precisa dar aos alunos ferramentas para entender o mundo. O que isso quer dizer na prática?
Alves - Simplificando a minha teoria, digo que o corpo carrega duas caixas: uma de ferramentas e a outra de brinquedos. O que são ferramentas? São todos os objetos usados para fazer alguma coisa. Então, ferramentas não são fins em si mesmos. E elas são importantes porque nos dão poder. Um alicate é muito mais poderoso que meu dedo. E a primeira coisa que a escola tem de perguntar é: isso que eu estou ensinando é ferramenta para quê? Segundo: o aluno quer fazer isso? Porque não adianta você dar uma ferramenta para a pessoa, um martelo e um prego, se ela quer ser pintora. A ferramenta só tem sentido se tiver uma demanda, se eu estou querendo fazer alguma coisa. Se eu estiver interessado em plantar um jardim, vou aprender sobre as plantas, esterco e fertilizantes. O professor tem de perguntar a si mesmo isso. Se não for ferramenta, ela não vai ser guardada.
ÉPOCA - Por que não é guardada?
Alves - Se todos os reitores das nossas universidades prestassem vestibular, seriam reprovados. Porque eles esqueceram. E fizeram isso porque são burros? Não. Eles fizeram isso porque são inteligentes. Porque a memória não carrega coisas que não têm função. Também seriam reprovados os professores universitários e os dos cursinhos só passariam na própria disciplina. Eu seria reprovado. Tudo foi perdido. Já a caixa dos brinquedos está cheia de objetos que não servem para nada. Não há formas de usá-los como ferramentas. Lá estão a poesia de Fernando Pessoa, as sonatas de Mozart, as telas de Monet, pores-de-sol, beijos, perfumes, coisas que apenas nos dão felicidade. Assim se resume a educação.
ÉPOCA - Mas os alunos precisam ter conhecimentos básicos em áreas como Matemática, Biologia ou Química, não?
Alves - Para quê? Para passar no vestibular? Para esquecer tudo? Quem disse que tem de aprender isso? Por que eu tenho de aprender logaritmo neperiano? Não conheço ninguém que tenha usado isso. Se por acaso eu for precisar um dia na minha vida, estudo e aprendo. Não preciso me preocupar com isso na escola. E as pessoas não se dão conta de que todo esse conteudismo é perdido. Não sobra nada. Uma amiga minha, professora de Neuroanatomia na Unicamp, dizia que os piores alunos que ela tinha eram esses que apareciam em outdoors de primeiro lugar. Porque quando ela explica anatomia, um assunto cheio de complexidades, sempre tinha um que levantava a mão e perguntava: ''Professora, qual é a resposta certa?''. Ou seja, ele não entendia que esse negócio de ter sempre uma alternativa certa não existe. No caso do médico, com um doente terminal, o que ele faz: dá morfina ou continua com a quimioterapia? Não há resposta certa. É preciso aprender isso. E essas coisas não são ensinadas.
ÉPOCA - O senhor chegou a pregar o fim do vestibular. Por quê?
Alves - Já preguei, e quando falo nisso as pessoas acham que estou brincando. Quando eu era pró-reitor de graduação da Unicamp, queria um vestibular que avaliasse a capacidade de pensar dos alunos, e não a memória. Um professor me disse: a solução mais fácil é o sorteio. Dei uma gargalhada. Mas comecei a pensar e vi que é isso mesmo. A primeira coisa do vestibular que me morde não é decidir quem entra ou não na universidade, mas a sombra sinistra que ele lança sobre tudo o que vem antes. As escolas são orientadas para o vestibular, e os pais logo de saída querem as escolas fortes para os filhos passarem no vestibular. A primeira conseqüência de ter o sorteio é que as escolas seriam livres para ensinar. Elas não precisariam preparar os alunos para o vestibular. Então, as pessoas poderiam ouvir música, ler e fazer o que quisessem. Seria a libertação das escolas para realmente ensinar. Em segundo lugar, acabariam os cursinhos. Se tiver sorteio, ninguém pode reclamar. Sorteio é sorteio. Acabaria o sofrimento psicológico dos alunos, que têm a auto-imagem destruída. Também acabaria o conflito entre pais e filhos.
ÉPOCA - Mas um vestibular por sorteio poderia ter muita injustiça?
Alves - Várias pessoas me dizem isso. Claro que poderia, mas não do tamanho da injustiça que existe no atual sistema de vestibular, que nada mais é que uma grande perda de tempo, de dinheiro, de inteligência e de conhecimento. Também me perguntam se qualquer aluno, sem o menor preparo, poderia entrar na universidade. Respondo que não. Haveria no final do ensino médio um exame no país inteiro para verificar se os alunos atingiram um ponto mínimo exigido. E não seria classificatório. Quem passasse poderia participar do sorteio. Quem fosse reprovado poderia refazer a prova depois.
ÉPOCA - É polêmico...
Alves - Não acho, não. Acho que é uma solução óbvia. É mais inteligente que o modelo que existe atualmente. E menos danosa.
ÉPOCA - Como educador, o senhor não se dedica apenas a escrever livros voltados para o tema. Também tem publicações em formato de contos, prosa e versos. Por quê?
Alves - Eu não tenho livros de teoria. Escrevo contos e faço isso brincando. Então, sinto prazer mesmo quando estou falando sobre coisas teóricas. Mas sempre abordo o tema da educação por meio de metáforas. Inclusive sob a forma de poesia. Por isso muita gente não me leva a sério. Dizem que o Rubem Alves não é cientista. Não sou mesmo. E nem quero ser. Cientistas, já temos em excesso.
ÉPOCA - E este último livro nasceu como?
Alves - Escrevo muita coisa e, no meio dessas, de algumas eu gosto mais. É como se fossem snap shots, instantâneos da alma. Neste livro, há uma série deles. Você pode abrir em qualquer lugar. Não tem argumento, não quer provar nada, não há nenhuma tese. Uma vez escrevi uma crônica sobre a função cultural das privadas. Essa palavra é considerada feia. Quando se fala numa festa, o dono da casa retruca ''o banheiro'', ''o toalete'' e, quando você chega lá, é privada. Esse nome é tão bonito, tem a ver com privacidade, com estar sozinho, onde ninguém te interrompe. Lá é lugar escolhido por muitas pessoas para ler jornal. Um lugar de erudição, de conhecimento. Então, sugeri aos artesãos que fizessem umas miniestantes para instalar na frente do ''trono''. Nelas poderia ser colocada uma série de livros. Mas livros que tenham textos curtinhos. Aí a pessoa pode aproveitar para pensar, refletir. Acho que esse meu novo livro daria muito bem para esses momentos.



Fonte: revista Época

Maio 13, 2008

Defesa da Vida


O Brasil é um país laico. Os brasileiros têm diferentes religiões, e todas devem ser respeitadas. Em alguns países, a religião confunde-se com o Estado; neles, crime e pecado são a mesma coisa, mas esse não é o caso do Brasil. Aqui não podemos considerar crime o que é pecado para alguns. Os adeptos de cada religião têm, inclusive, o direito de não aceitar o desenvolvimento da medicina; podem recusar transplantes de órgãos ou transfusão de sangue. Mas por razões políticas, não podemos imaginar que uma fé se imponha a toda a população.

Nunca a humanidade esteve diante de opções éticas tão difíceis relativas ao uso da ciência e da tecnologia. É recente o poder da ciência de destruir a civilização e o planeta,com a bomba atômica, o aquecimento global e a manipulação da vida com diversas formas de biotecnologia. Hoje é possível não só prolongar a vida, mesmo depois da morte cerebral; mas também impedir o nascimento com métodos pré e pós-concepção; fertilizar in vitro e manter congelada uma população ilimitada de embriões; beneficiar os ricos com tratamentos que lhes permitam viver mais e melhor. Em breve, também será possível induzir mutações genéticas, beneficiando a classe social que paga por esse serviço e quebrando a semelhança da espécie.

Por isso, as opções devem basear-se em valores éticos e crenças humanistas. Os debates devem ser livres, para que as decisões considerem as crenças individuais e o interesse comum. Toda opinião deve ser ouvida, e ninguém deve ficar omisso. Este é o caso da decisão sobre o uso de embriões congelados nas pesquisas com células-tronco.

Há razões morais e religiosas contrárias, mas pelo menos cinco que justificam as pesquisas. A primeira razão é de ordem moral. Quem defende a vida deve defender o direito ao nascimento e à plena manutenção da vida e da saúde que ciência e tecnologia podem proporcionar. Contanto que a vida ou saúde de um não seja obtida sacrificando a de outro. A decisão de autorizar as pesquisas com embriões humanos passa pela escolha entre o nascimento de uma nova vida e a perda daquela que estaria em formação nos embriões. Saber em que momento surge a vida é questão científica e religiosa, mas saber quando a vida acaba é somente científico. E os cientistas afirmam que, depois que o embrião permanece congelado por três anos, é impossível que dali surja uma vida; se havia vida no momento da concepção, agora existe um ente morto. Não há, portanto,razão moral para considerar seu uso um atentado contra a vida. Não é um ato similar ao aborto ou à eutanásia. Se houve erro moral, ele teria ocorrido com a fertilização in vitro e o congelamento do embrião por tanto tempo.

A segunda razão é humanista. O direito à vida não pode ser visto somente como o direito de nascer. Precisamos considerar o direito de nascer e de continuar vivo. E muitas pessoas poderão viver, se essas pesquisas forem adiante. Não defende plenamente a vida quem não defende o direito à sobrevivência e à qualidade de vida de todos. Não há como falar em direito à vida sem considerar o direito de ficar vivo, de não morrer antes do tempo, por falta do avanço nas pesquisas científicas.

A terceira é política. O Brasil é um país laico. Os brasileiros têm diferentes religiões, e todas devem ser respeitadas. Em alguns países, a religião confunde-se com o Estado; neles, crime e pecado são a mesma coisa, mas esse não é o caso do Brasil. Aqui não podemos considerar crime o que é pecado para alguns. Os adeptos de cada religião têm,inclusive, o direito de não aceitar o desenvolvimento da medicina; podem recusar transplantes de órgãos ou transfusão de sangue. Mas por razões políticas, não podemos imaginar que uma fé se imponha a toda a população.

A quarta razão é social. Independentemente das leis brasileiras, essas pesquisas serão feitas em outros países. Se não autorizarmos as pesquisas, os brasileiros ricos irão aosEstados Unidos e à Europa; depois, à Argentina e ao Paraguai, ou a outros países que desenvolverão suas pesquisas. Socialmente, não podemos tolerar que uns se beneficiem de pesquisas porque têm dinheiro e outros não.

Do ponto de vista político, moral, social e humanista, há como justificar as pesquisas com células-tronco a partir de embriões. Mas além deles, há mais um a ser considerado: o ponto de vista patriótico. O Brasil não pode abrir mão do domínio científico em uma área tão fundamental da medicina. Se proibirmos o uso dos embriões nas pesquisas, daremos um passo atrás em relação às nações que poderão realizá-las. -

CRISTOVAM B UARQUE é professor e senador (PDT-DF).

Pacto Mundial pela educação


presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE), senador Cristovam Buarque (PDT-DF), defendeu nesta terça-feira (22/04/08) a adoção de um pacto mundial pela educação, como forma de combater a pobreza e reduzir a desigualdade. Em um mundo onde, a seu ver, o socialismo não é mais uma bandeira e o capitalismo não apresenta uma solução para a questão social, o caminho mais adequado seria o de oferta, às crianças mais pobres, de escolas tão boas quanto as de crianças mais ricas.

- Pode ser ambicioso falar de um pacto mundial, mas podemos lembrar que o Brasil deu um grande salto econômico em vinte e cinco anos, a partir de 1955. Este é o tempo de que precisamos para garantir uma educação avançada e igualitária - disse Cristovam na abertura do 2º Simpósio e Fórum Público em Educação, Igualdade e Justiça Social, promovido pela CE e pelo Ministério da Educação, no auditório Petrônio Portella. O evento contou com a presença do presidente do Senado, Garibaldi Alves.

Cristovam recordou que existem diversos organismos internacionais para promover o desenvolvimento econômico, mas nenhum voltado à promoção do aperfeiçoamento da educação. Ele observou ainda que a educação pode ajudar o planeta a preservar o meio ambiente e a garantir a liberdade, por meio da formação de cidadãos mais conscientes em todos os países.

O presidente da CE citou a Finlândia e a Coréia do Sul como exemplos de países que celebraram um pacto pela educação. Esse tipo de pacto, definiu, deve nascer de um compromisso nacional suprapartidário e envolver ações de longo prazo.

Equalização

Também presente ao encontro, o ministro da Educação, Fernando Haddad, incluiu entre os principais fatores de desigualdade no país a concentração de propriedade e a concentração de conhecimento - esta, como observou, "tão dramática" quanto aquela. Os constituintes de 1988 foram "sábios", na opinião do ministro, ao atribuir à União a função de equalizar as oportunidades de educação em todo o país. Mas o governo federal não cumpria a determinação até 2005, pois destinava recursos às escolas que menos precisavam deles.

Por isso, informou o ministro, a União passou a garantir maiores recursos aos 1.242 municípios que se encontram em pior situação na área educacional. Para Haddad, o Brasil precisa melhorar a gestão das verbas destinadas à educação. Mas necessita também maior quantidade de recursos para a área.

Haddad aproveitou o momento para elogiar a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), por haver aprovado proposta de emenda à Constituição da senadora Ideli Salvatti (PT-SC) que isentará a educação da aplicação da Desvinculação de Receitas da União ( DRU ). Segundo seus cálculos, a educação deixou de receber mais de R$ 70 bilhões desde a implantação da DRU.

- O país vai agradecer ao Congresso Nacional pela aprovação dessa proposta - afirmou Haddad.

A ministra da Educação da África do Sul, Grace Naledi Mandisa Pandor, narrou os esforços de seu país para superar as marcas do apartheid e democratizar as oportunidades educacionais, ao longo dos 14 anos desde o fim do regime racista. Ela ressaltou, porém, que não se deve considerar a reforma da educação como uma tarefa fácil.

Ao longo dos últimos anos, relatou a ministra, foram feitos investimentos em novas escolas e na abertura de todas as antigas escolas para crianças e jovens negros. As mudanças culturais, porém, são mais lentas. Os alunos cujos pais não lêem e nem os acompanham em seus deveres de casa, disse ela, permanecem com maiores dificuldades de aprendizado. E ainda existe hostilidade por parte de estudantes brancos em relação aos novos alunos negros de suas escolas.

- Levará muitas décadas para se reduzirem as diferenças - previu.

Também participou do simpósio - que contou com educadores de África do Sul, Brasil, Índia e Reino Unido - a diretora-geral do Departamento de Escolas, Crianças e Famílias do Ministério da Educação da Grã-Bretanha, Lesley Longston.
Marcos Magalhães / Agência Senado

Maio 02, 2008

As Outras Dengues



O Brasil está assustado com a epidemia de dengue que afeta atualmente diversas cidades brasileiras, especialmente o Rio de Janeiro. As autoridades trocam acusações e discutem de quem é a culpa. Mas poucos se lembram dos que avisaram que ela aconteceria. Foram muitos os médicos, epidemiologistas e políticos que avisaram, cobraram, denunciaram que o Brasil, especificamente o Rio, caminhava para a epidemia que hoje testemunhamos.

O risco de epidemias previamente anunciadas não se limita apenas ao quadro de saúde. Há décadas os ecologistas avisam, como muitos avisaram da dengue, que o desflorestamento da Amazônia é uma praga que destrói o meio ambiente. Mas esses avisos foram e continuam sendo ignorados. Alguns grupos - não apenas os conservadores de direita - chegam a reagir, dizendo que proteger a Natureza é um atraso, porque o progresso se mede por árvores derrubadas e transformadas em madeira. Há vinte anos, um marxista brasileiro dizia que a preocupação com o meio ambiente era uma invenção do imperialismo para impedir o desenvolvimentismo do Terceiro Mundo.

Nós, brasileiros, somos os Aedes aegyptis da Amazônia.

Em São Paulo, já se sabe que, um dia, o trânsito da cidade vai parar de vez por causa do excesso de automóveis, mas cada vez se produz, compra, dirige mais. Mesmo sabendo que a epidemia de carros vai paralisar o organismo da cidade, como a dengue paralisa o organismo do doente.

A corrupção, as medidas provisórias, o vazio do Congresso são o mosquito que contamina a democracia.

A política brasileira está com dengue, com a previsão de que em breve será hemorrágica, mas nada fazemos para interromper a marcha da epidemia que conduz ao autoritarismo explícito. Muito maior do que o atual autoritarismo das medidas provisórias em excesso e sem justificativa de urgência. Mas os alertas caem no vazio, como há algum tempo caía no vazio a denúncia do risco de dengue.

Há anos é anunciada uma epidemia de desemprego, não por falta de vagas, mas por falta de formação.

Uma epidemia que poderá, inclusive, reduzir o ritmo do crescimento em diversos setores. Todos os dias, sobram - na indústria, na agricultura, na construção, nos serviços - vagas não preenchidas, enquanto milhões de pessoas desempregadas querem trabalhar, mas não possuem a qualificação necessária.

Nos últimos 50 anos, diversos políticos, como Brizola, alertaram e tentaram convencer o Brasil a dar importância à educação. Tudo indica que essa epidemia também vai se agravar, porque a educação não avança como deveria, e porque as exigências de formação crescem mais rapidamente do que a formação - que, quando é oferecida, é insuficiente, incompleta e não proporciona a complexidade que os tempos de hoje exigem.

Todos sabemos que há muitas outras epidemias se preparando para eclodir no Brasil, mas vamos esperar para manifestar nossa indignação e, fingindo surpresa, culpar os outros: o ministro vai culpar o prefeito, o prefeito vai culpar o governador.

A pior de todas as epidemias é a falta de consciência da necessidade de um projeto comum para a nação.

A epidemia de imediatismo e corporativismo, que provoca a omissão e legitima o esquecimento do futuro.

Impede o investimento de hoje, para evitar o que só vai acontecer amanhã. É por isso que nenhum de nós se responsabiliza pelo resto do Brasil. Deixamos água empoçada e crianças sem escola - desde que não sejam as nossas. Como se os terremotos epidêmicos deixassem de pé somente a casa da gente, e as outras não importassem. Assim, o cidadão omisso e os governos oportunistas olham apenas os votos de hoje, e não para as doenças de amanhã. Recusamse a exigir sacrifícios no presente para construir o futuro.

O imediatismo e corporativismo nos impedem de identificar a epidemia da ausência de capital-conhecimento: ela não provoca febre e dores em cada indivíduo infectado, como faz a dengue, mas ameaça ainda mais o futuro da economia e das famílias do Brasil.

Cristovam Buarque

DE “ÃO” EM “ÃO”...



Malão, cuecão, dizimão, mensalão, mesadão, corrupção, milhão, ladrão, mentirão... é, parece que o sufixo meio deselegante utilizado para o aumentativo, o antigamente pouco usado “ão”, entrou na moda para ficar... A admirável facilidade de expressão do Deputado Jefferson não somente provocou uma avalanche política, mas também uma avalanche de neologismos que certamente serão incorporados ao vocabulário do brasileiro, sempre mais disposto a rir do que a chorar. Para o choro e para o riso, o que não tem faltado é razão. Inevitável não lembrar-se da música “o que dá prá rir, dá prá chorar”, que, não por acaso, é um samba e não um fado.
Mas o que dá prá rir e prá chorar, dá também para pensar. E muito! Dá também para rezar. E como! Desiludido com a classe política, o brasileiro já está há várias gerações. A novidade, desta vez, é que a mentira, o descaramento e a roubalheira são transmitidos ao vivo para o Brasil inteiro, em um repertório inesgotável de inverdades e rostos devidamente convictos do que estão dizendo, contrastando com a gagueira, o ato falho, o pisca-pisca que revelam, para o bom observador, atitudes involuntárias que desmentem o que as palavras afirmam com veemência e convicção, dando a deixa para já vislumbrar o que vai ser desmentido nas próximas horas. Virtudes da democracia, sem dúvida, que garante o direito à informação, por mais enlameada que seja.

Desilusão, mentiras, escândalos. “O que mais, meu Deus?” perguntava eu enquanto aguardava o inicio da Missa. Livre, o pensamento percorreu a forma como Jesus lidava com o dinheiro e como este não exercia sobre ele a mais ínfima atração: o imposto devido ao templo, a moeda com o rosto do imperador romano, os vendilhões do Templo, o rico Epulão, o jovem rico, o camelo e a agulha, o homem que vendeu tudo o que tinha para comprar o campo e a pérola, isto é, o reino de Deus, tudo para desembocar nos lírios do campo, que nem semeiam, nem ceifam, nem roubam, nem acumulam.

Parábolas, atitudes e ensino. O ensino de que os bens da terra nos são dados para o nosso sustento no essencial e para a partilha de tudo o que passar disso. A sabedoria de que, embora os filhos não paguem impostos, o Filho de Deus se esvazia de si para pagar e provoca, para isso, o milagre do peixe, que não veio com as vísceras cheias de moedas para enriquecer Pedro, mas que trouxe na boca uma única moeda, suficiente para pagar o imposto do Filho e do Cefas.
A separação clara entre o que é de Deus e o que não é. O grande bem de Deus são os homens, cada homem, e não um metal com o perfil de César. A César, dá-se o que é de César. A Deus, o que é de Deus. Isso os vendilhões do templo não entendiam. Misturavam tudo, como o rico Epulão que misturava as coisas do céu e da terra acumulando trigo no celeiro e achando que isso garantia sua tranqüilidade, em uma atitude diametralmente oposta à do homem que vendeu tudo o que tinha para comprar o terreno e a pérola do Reino de Deus.

O jovem rico não era tão tranqüilo como Epulão. Tentava comprar sua paz de consciência. Não com dinheiro, pois sabia que Jesus não o tinha como fim, mas como meio. Sua “moeda” era o “comportamento exemplar” que, no fundo no fundo, como muitos dos que têm sido exibidos na TV, não era tão exemplar quanto queria fazer parecer. Resultado, é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha!

Olhando com mais cuidado, veremos que também no Evangelho há alguns “ão” que se referem a roubo de dinheiro: vendilhão, Epulão e... traição. Pois é. Traição por 30 moedas de prata.
A tática é parecida: a irritação com o gasto do dinheiro que tencionava roubar da bolsa (bolsão, diria o Deputado Jefferson) dos pobres e que, segundo a sua lógica ladina, lhe pertencia. Os planos mil vezes detalhados a rolar sobre o manto nas noites insones ao lado de Jesus que dormia tranquilamente. Mil detalhes repassados, repensados, mil táticas revistas à exaustão, contatos secretos e por intermediários com as autoridades do templo e, por fim, o grande golpe de quem estava acostumado a roubar sempre, mas roubar miúdo, a sonhar com grandes somas – é que, como diz Santa Tereza, pecados “leves” levam incontinenti a pecados “graves”. Chegou, finalmente, o grande dia tantas vezes matutado. O dia do roubo histórico em forma de negociação das famosas moedas de prata em uma pequena sacola de couro - não havia malas como as nossas, naquele tempo.

Terá Judas recordado as palavras de Jesus: “Nada há de encoberto que não venha a ser revelado”? Terão alguns dos envolvidos no atual escândalo lido e se lembrado desta lei espiritual tão infalível? Se nada se tivesse revelado, o que teria o poder de sustar sua ambição desmedida? Sim, até onde iriam, depois das Bahamas e Deus sabe onde mais? Até onde chegariam na velha lei de que dinheiro nunca basta, nunca basta, nunca basta?

O “ão” de ambição seria, talvez, uma estranha simbiose ortográfica? Mensalão = mesada + ambição, com sua corruptela mesadão; cuecão = cueca + ambição, e assim por diante. Não sei ao certo. Não creio que esta seja uma regra ortográfica e a filologia não a explicaria. É, isso sim, uma regra do coração do homem, de onde brota o que realmente o enlameia e condena.
É assim com a turma da corrupção, é assim com o ladrão. Semana passada, roubaram mais de 167 milhões- 3,5 toneladas em notas de 50 – do BC de Fortaleza. Dois dias depois, encontraram o primeiro carro com alguns milhões. A primeira notícia era a de que um funcionário da garagem havia feito a denúncia. Reação de uma vendedora de balcão, casada, mãe, pseudo-educadora, enquanto seu colega me atendia:

“Mas vá ser burro assim no inferno! Então, não está vendo que eu não devolvia o dinheiro e nem denunciava ninguém?!? Eu ia era viver! Só se vive bem mesmo é com muito dinheiro! Ia sair da miséria, minha filha!”

Reação de um senhor de cerca de 70 anos, ajoelhado a rezar diante do portão de grade da casa de onde partiu o túnel para o cofre do Banco, ao ser entrevistado:
“Estou rezando aqui porque esta casa dá sorte! Atrai dinheiro! Trouxe uma fortuna para os ladrões. Pode trazer também uma fortuna para mim. Pelo menos uma mega-sena. Vou sair daqui e comprar um bilhete e jogar no bicho. Tenho certeza de que Nosso Senhor Jesus Cristo e esta casa milionária vão me ajudar”. O pior: ele estava falando sério!
Vendilhão, traição, mensalão, mesadão, cuecão, dizimão, mentirão, ladrão, corrupção, ladrão, Epulão. Todos filhos da ambição que escraviza e ilude o coração do homem desde o pecado original, ao ponto de ele a transformar no que aquele pobre velho, talvez a poucas semanas da morte, chama de... oração.

Conclusão em três níveis: o mais superficial: todo povo tem os políticos que merece; o segundo: onde foram parar o que há não muito tempo se chamava de “virtudes”, de ideais?; o terceiro: a ambição habita, soberana, o coração do homem de todos os tempos; o quarto, o mais preocupante de todos: que terrível poder tem o dinheiro feito fim e não meio!
O Senhor venha em auxílio dos brasileiros que plantaram o pecado da pesquisa com embriões, que regaram o pecado do aborto de crianças provenientes de estupro com a dispensa do B.O., que cultivam o projeto de aborto dos anencéfalos e colhem com este escândalo, em forma plástica e material, os frutos da corrupção do coração que há tantos anos cultiva das mais variadas formas, a imoralidade de amar mais a si mesmo e seus próprios interesses do que a Deus e ao irmão.
(19/10/2006 )
Maria Emmir Oquendo Nogueira
Co-Fundadora e Formadora Geral da Comunidade Católica Shalom

Maio 01, 2008

Erotização da música influi na precocidade sexual da criança


É comum vermos crianças cada vez mais novas cantando e dançando ao som de refrões carregados de sexualidade, utilizando roupas e calçados impróprios para essa fase. As músicas erotizadas se tornam febre entre meninos e meninas em todo o país, mesmo sem muitas vezes terem conhecimento do que estejam ouvindo ou dançando. Mas qual a influência dessas músicas no desenvolvimento da criança? De que modo a letra de uma canção pode influenciar o comportamento infantil?

Para a psicóloga Aline Maciel, músicas de cunho apelativo com letras que tratem de sexo estimulam a iniciação sexual precoce entre meninos e meninas. Segundo ela, “músicas com uma carga sexual muito forte aliadas a coreografias sensuais fazem com que as crianças tenham acesso a elementos que não são adequados a sua faixa etária, induzindo comportamentos inadequados”.

O artigo A música e o Desenvolvimento da Criança, de autoria da Doutora em Educação Monique Andries Nogueira, atesta que a música tem um papel importante nos aspectos afetivo e social de meninos e meninas desde a primeira infância, período que vai do nascimento aos seis anos de idade. Além disso, ela funciona como meio de inserção e identificação cultural entre elas.

Entretanto letras e danças erotizadas fazem com a sexualidade, entendida como elemento presente em todos os estágios de desenvolvimento do indivíduo, se volte para o sensual, o erótico e o excitante, quando deveria ser canalizada para a construção das emoções, das relações sociais, da experimentação de papéis e do desenvolvimento da afetividade.

O acesso precoce a esse tipo de produto cultural faz com que a criança deixe de vivenciar a infância e aquilo que é próprio da fase, que é o brincar. Com a banalização do sexo, a percepção da criança é alterada. “A criança começa lidar com a sexualização do corpo sem o devido entendimento de como isso deve ser tratado”, explica Aline Maciel.

O resultado disso é o adiantamento do primeiro contato com a sexualidade, que deve acontecer na pré-puberdade, a partir do onze anos de idade. “A criança sofre uma pressão da sociedade, antecipando todo o seu processo sexual e vivendo a sua sexualidade sem inteireza e maturidade”, opina Aline Maciel. Para ela, as crianças se tornam erotizadas e em especial as meninas, que passam a ver o corpo como entidade de prazer, consumo e status social.


Imagem da mulher - Várias músicas distorcem a imagem da mulher ao utilizarem expressões como “cachorra”, “potranca”, “Maria-gasolina” e “piriguete”, que reforçam o estigma da mulher como objeto sexual e do corpo com valor de troca, denegrindo sua imagem. Esse tipo de produção afeta diretamente o desenvolvimento das meninas. “As mulheres quando dançam as coreografias carregadas em sensualidade atraem a atenção dos homens. Então, as meninas passam a se preocupar também em atrair os meninos, o que é impróprio para a infância”, comenta Aline Maciel.

Uma das decorrências disso, é o aumento dos índices de gravidez na adolescência e dos casos de abuso e violência sexual. De acordo com as estatísticas do Registro Civil, divulgadas em dezembro do ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice de partos em mães adolescentes em Sergipe representou 21,53% do total de nascimentos em 2006. Com a gravidez precoce, várias etapas do desenvolvimento são queimadas. Com a responsabilidade de uma vida nova para cuidar, muitas vezes a primeira conseqüência é o abandono dos estudos.

Com a precocidade da sexualidade da infância, os casos de abuso e exploração sexual tendem a aumentam. Em Sergipe, até setembro de 2007, a Maternidade Hildete Falcão, onde são realizadas perícias de casos desse tipo, realizou 150 atendimentos a vítimas. Os Conselhos Tutelares também registram frequentemente casos de exploração sexual comercial de crianças e adolescentes em Aracaju. Somente em 2006, foram registradas 23 ocorrências.

Um outro agravante a essa questão é o fato dos pais aprovarem que os filhos escutem músicas e dancem coreografias com sentido dúbio e sensual. “Quando os pais acham bonitinho que suas filhas usem aquele tipo de roupa e dancem essas músicas, eles estão contribuindo para a precocidade do sexo e o adultecer da criança”, esclarece a psicóloga.


Papel dos pais e da escola - O contato da criança com músicas que estimulam o erotismo e a sexualidade deve ser acompanhado pelos pais. “Os pais devem conversar com os filhos, fazendo com que eles reflitam sobre o conteúdo das músicas. Para que eles entendam que aquele tipo de música não é legal”, destaca Maciel.

Levar a criança a ter acesso a outros tipos de música, de cunho criativo, reflexivo e ao mesmo tempo divertido é um outro caminho possível na hora de reeducar os filhos musicalmente. Segundo Aline Maciel, “é necessário uma contrapartida dos pais ao se envolverem com os filhos e apresentarem a eles um tipo de música adequado”.

Além dos pais, a escola também tem papel fundamental na conscientização das crianças. “A escola precisa oferecer à criança um tipo de música diferente daquele que é tocado nas rádios e na TV”, reforça a psicóloga. O projeto pedagógico e o professor em sala de aula precisam desenvolver no aluno a capacidade de crítica e reflexão sobre o tema da sexualidade.


Contudo a psicóloga alerta que cabe aos pais escolherem a escola mais adequada e cobrar dela o cumprimento do projeto educacional apresentado, acompanhando as atividades desempenhadas e conversando com seus filhos.

A erotização da mídia - A música está presente em programas de TV, em anúncios publicitários, em filmes e em outros produtos de mídia. É muito utilizada como meio de estímulo ao consumismo e a violência. Mas ainda são as músicas que tratam de sexo, relacionamentos amorosos, traição e outros temas relacionados que mais prejudicam as crianças. Para a pesquisadora Maria José Subtil, no artigo Mídias e Música: a construção social da noção de infância, “da parte da mídia, o reforço a uma visão erotizada das crianças cria uma espécie de mal-estar em “ser infantil” e acentua nessas crianças manifestações miniaturizadas de características dos adultos”.


Ética e Legislação - A veiculação de músicas e danças na TV que explorem a sexualidade fere o Código de Ética da Radiodifusão Brasileira que determina, no Capítulo II, artigo 15, que “as emissoras de rádio e televisão não apresentarão músicas cujas letras sejam nitidamente pornográficas”.


O artigo 71 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) assegura que “a criança e o adolescente têm direito a informação, cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos e produtos e serviços que respeitem sua condição peculiar de desenvolvimento”, ao passo que o artigo 59 prevê que “os municípios, com o apoio dos Estados e da União, estimularão e facilitarão a destinação de recursos para espaços e programações culturais, esportivas e de lazer voltadas para a infância e a juventude”.

Além disso, o ECA responsabiliza o poder público pela regulamentação de espetáculos públicos, entre eles shows musicais, informando as faixas etárias de acesso a que não se recomendam, além de locais e horários inadequados para a sua realização (Art. 74).


Desenvolvimento saudável - A música também contribui positivamente para o desenvolvimento da criança, quando empregada em contexto adequado. De acordo com a psicóloga Aline Maciel, “a música desenvolve a percepção, a concentração, a observação e a criatividade da criança”.

Ao mesmo tempo em que a música possibilita essa diversidade de estímulos, ela pode estimular também a absorção de informações e a aprendizagem, principalmente no campo do raciocínio lógico, da memória, do espaço e do raciocínio abstrato. A especialista ressalta que essas características são desenvolvidas “dentro de melodias suaves, de construções harmônicas adequadas e letras construtivas”.


A pesquisadora Monique Andries Nogueira afirma que a música também traz efeitos muito significativos no campo da maturação social da criança. É por meio do repertório musical que a criança se inicia como membros de um grupo social. Além disso, a música também é importante do ponto de vista da maturação individual, isto é, do aprendizado das regras sociais por parte da criança.

Fonte: Rede Andi Brasil

Cegueira educacional


O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) fez nesta quarta-feira (30) uma crítica aos que não enxergam as verdadeiras razões da má qualidade do ensino universitário. Segundo o parlamentar, o maior problema do ensino superior é o quadro de deficiências do ensino fundamental.

Referindo-se ao coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Antônio Dantas, que atribuiu o baixo rendimento dos alunos da faculdade no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) ao baixo quociente de inteligência (QI) dos baianos, Cristovam disse que a declaração do professor é menos nociva pelo racismo que embute e mais pela incapacidade analítica que reflete.

- O racismo dele é uma debilidade mental, mas a cegueira quanto ao quadro educacional me preocupa mais, porque impede de ver a real dimensão do problema - ponderou o parlamentar.

O senador pelo DF chamou a atenção para o fato de que muitas crianças sequer chegam às universidades e faculdades, já que interrompem os estudos, com que desperdiça-se um importante capital humano. Muitas outras vencem enormes barreiras até o ensino superior, mas chegam com uma base intelectual muito pobre, daí decorrendo as notas baixas observadas nos testes de avaliação como o Enade.

- O maior problema da Bahia não é o QI dos alunos, que não está em questão, mas o analfabetismo entre os adultos, que ocorre por falta de condições para que a população cumpra com todas as etapas da vida escolar - disse Cristovam.

O senador fez uma comparação entre a educação e o futebol no Brasil, mostrando que os brasileiros são habilidosos com a bola, porque desde cedo praticam o esporte, o que não ocorre com o ensino.

- A bola é redonda para pobres e para ricos, mas no caso da educação nossas crianças pobres não podem brincar como as ricas - ironizou

Fonte:
Nelson Oliveira / Agência Senado

Polêmico site incentiva crianças a alcançar o corpo ideal


“Miss Bimbo” é um novo “site” que desafia crianças entre os sete e os 17 anos a entrar num concurso de beleza virtual, que já se tornou num sucesso entre milhares de adolescentes e que tem preocupado as associações de pais britânicas, assim como alguns especialistas da área.

O jogo “on-line” incentiva as crianças a criar a sua própria boneca virtual recorrendo a dietas muito rigorosas e à cirurgia estética para transformá-la na “bimbo mais cool, rica e famosa de sempre”, como pode ser lido na página inicial do “site”.

A principal tarefa é conseguir “bimbo dólares”, o dinheiro virtual necessário para os jogadores procederem às transformações da boneca e assim subir de posição. Apesar de a inscrição ser gratuita, os utilizadores necessitam de mandar SMS para adquirir mais créditos. Cada uma das mensagens custa cerca de dois euros.

Entre as tarefas para alcançar o físico ideal pretendido sugere-se às pequenas cibernautas que façam operações de aumento de peito ou dos lábios, que usem pílulas dietéticas e uma série de restrições alimentares que, segundo os críticos, podem ser perigosas, originando hábitos de anorexia.

Entre os vários níveis a ultrapassar pelos jogadores está o nível 11 - onde se pode ler “Maior é melhor. Adquire uma operação para aumentar os peitos” - e o nível 17, onde a missão é conquistar o amor de um bilionário em férias (“Está um bilionário de férias… É tua missão conquistar o seu amor! Boa sorte!”).

Para que o jogador possa criar uma conta no “site” é necessário fornecer o seu endereço de correio electrónico pessoal, bem como o dos seus pais. Após a confirmação dos dados, os pais recebem no “e-mail” fornecido uma mensagem que notifica a inscrição da criança, contendo informações sobre o jogo e acesso a uma “página” onde pode ser feito um pedido para que o endereço de correio electrónico da criança seja removido da base de dados do “site”. Os pais podem, assim, não autorizar, através do “link” disponibilizado, que o seu filho seja contactado regularmente.

Apesar destas medidas de precaução, várias associações de pais britânicas já vieram a público dizer que o jogo é “perigoso” e contestar “os valores superficiais” que difunde. Os médicos, por sua vez, temem que seja um incentivo para a anorexia.

Ideia importada de França

Em apenas um mês, mais de 260 mil utilizadores britânicos (a maioria raparigas entre os nove e os 16 anos) fizeram o seu registo no jogo. A ideia foi importada de França, onde atraiu 1,2 milhões de jogadores. Segundo o criador do “site”, o jogo conta, neste momento, com jogadores de 200 países diferentes.

Este fenómeno suscitou a denúncia de profissionais de saúde e associações de pais, primeiro em França e, mais recentemente, em Inglaterra, que advertem sobre a “mensagem irresponsável” que a “Miss Bimbo” transmite aos menores, facilmente influenciáveis.

O criador do “site”, Nicolas Jacquart, um empresário francês que acaba de instalar-se em Londres para promover o jogo, diz não compreender as críticas, visto “as crianças aprenderem [em ‘Miss Bimbo’] a tomar conta dos seus personagens. A missão e objectivos são moralmente aceitáveis e ensinam as crianças a viver no mundo real”. Jacquart explica que “o grau de felicidade dos seus ‘bimbos’ quando comem muito chocolate é inferior ao grau de felicidade que atingem se ingerirem muita fruta e vegetais”. As operações de aumento de peito são apenas uma parte do jogo e nós não encorajamos as crianças a fazer o mesmo”.

Segundo Bill Hibberd, porta-voz da associação britânica Parentkind, “o perigo reside no facto de uma menina de nove anos não conseguir perceber a ironia e conceber a ‘Miss Bimbo’ como um modelo de comportamento: neste caso, o jogo converte-se numa verdadeira ameaça”. Hibberd disse ainda que o jogo pode causar problemas financeiros aos pais dos jogadores devido às elevadas contas telefónicas originadas pelo envio das mensagens solicitadas.

Isabel do Carmo, especialista na área da Endocrinologia, disse ao PÚBLICO que, embora não conheça o “site”, mas segundo o que lhe foi descrito, “o tratamento que este dá ao corpo e à dieta pode ser perigoso e contribuir para que surjam perturbações alimentares nas crianças”. Segundo a especialista, o objectivo final de encontrar um namorado “é negativo do início até ao fim”.

Phonepayplus averigua sustentabilidade das críticas

A Phonepayplus, organização britânica reguladora de produtos e serviços pré-pagos por telemóvel, quer ouvir as queixas e preocupações dos pais e admite estar a averiguar até que ponto as regras são infringidas pelo “site” no que toca ao serviço disponibilizado às crianças.

“O nosso código tem restrições específicas para serviços que têm como público-alvo crianças ou que apenas parecem ser atractivos para as mesmas”, disse a Phonepayplus em comunicado. No mesmo comunicado pode ler-se: “As nossas regras são claras: os serviços disponibilizados não podem explorar ou disponibilizar conteúdos que não são aceites pelos pais”.

Depois da grande exposição nos media a que o “site” foi sujeito, os seus criadores incluíram, esta semana, uma secção destinada aos pais onde podem ser consultadas as regras detalhadas dos serviços disponibilizados e os termos de utilização para menores de 13 anos.

Fonte: Público Pt

Educação e econômia



Miriam Leitão: Para ter novo ciclo de crescimento, agora tem que investir em educação. É o caso da China e da Índia. E nossa produção de biocombustíveis foi duramente criticada na abertura da reunião da ONU.

A mensagem é clara: sem educação, não há economia que cresça. No século 20, o Brasil cresceu até os anos 1980, num modelo de desenvolvimento que não exigia muito do cérebro dos trabalhadores.

Para ter novo ciclo de crescimento, agora tem que investir em educação. É o caso da China e da Índia. A China está investindo muito em educação, a Índia está muito atrás de nós, principalmente na educação das mulheres. Mas nossos números são vergonhosos para um país deste tamanho.

Em Nova York, os especialistas falavam de investimentos que, no Brasil, ultrapassaram os R$ 3 bilhões em março. Mas aumentaram também as remessas de dinheiro para o exterior. Entraram R$ 3 bilhões, mas saiu mais do que isso.

A saída de capital para investir em outros países produz déficit nas contas externas. Isto não é problema, por enquanto. Mesmo assim, é preciso ficar de olho no déficit externo, porque ele está crescendo mais fortemente do que se imaginava.

Críticas ao etanol brasileiro

A produção de biocombustíveis foi duramente criticada na abertura da reunião das Nações Unidas para debater a crise dos alimentos, na segunda-feira (28). Isso é ruim para o Brasil, porque o país precisa explicar que, no nosso caso, é diferente.

O Brasil está muito à frente dos outros países. Produz álcool combustível há quase 40 anos e hoje 55% do combustível automotivo vêm da cana-de-açúcar. Mesmo assim, continua aumentando a produção de alimentos e ainda tem muita terra vazia e mal aproveitada.

O Brasil precisa é parar o desmatamento da Amazônia. Do contrário, ele vai dar um bom argumento para os que criticam nosso etanol. Uma empresa brasileira vai fabricar plástico de etanol.

Tem muitos interessados, mas ontem o presidente da empresa me contou que, quando ele viaja para falar de seu produto, todos o perguntam se a cana vai crescer expulsando outras culturas para a Amazônia.

O combustível de origem vegetal é uma boa alternativa para enfrentar a disparada do petróleo. Ontem, o presidente da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), o cartel dos produtores mundiais de petróleo, falou que o barril pode chegar a US$ 200.

Como no Brasil a gasolina não tem subido, o consumidor fica com a impressão de que não está pagando este preço, mas está – em outros produtos. A petroquímica brasileira, por exemplo, pagava US$ 180 a tonelada de nafta, que é a matéria-prima principal, em 2002 e hoje paga US$ 960.

O aumento em real é menor, mas é forte ainda e encareceu produtos como PVC para a indústria da construção, produtos para automóveis, embalagens, brinquedos. O plástico está em tudo.

Fonte: Programa Bom Dia Brasil da TV Globo de terça-feira, 29 de abril.

Uma profunda decepção!!



Foi publicada no Diário da República a lei de combate à criminalidade económico-financeira, na qual se insere a corrupção activa, o tráfico de influências e a participação económica em negócio.
Quando Portugal, segundo o relatório de 2005 da Transparency International Index, se situa no 26.º lugar no ranking dos países em que a corrupção tem maior expressão ao nível das práticas, de acordo com as necessidades, da análise da nova lei fica uma profunda decepção.
Apesar das recomendações da Convenção sobre a luta contra a Corrupção de Agentes Públicos Estrangeiros nas Transacções Internacionais, da Convenção Penal sobre a Corrupção, da Decisão-Quadro 2003/568/JAI do Conselho da União Europeia e a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, a última iniciativa legislativa ficou muito aquém do desejado sendo certo que não será este instrumento jurídico que irá permitir o combate ao tipo de criminalidade que mais mina e corrói o Estado e toda a sua autoridade.
Tendo em conta a actual conjuntura política, as expectativas criadas com o actual governo e o espaço que em termos de opinião pública lhe foi conferido, para que fossem efectuadas reformas profundas na sociedade portuguesa, a praticamente um ano do fim da legislatura, apenas nos resta lamentar mais uma oportunidade perdida para se travar uma luta que vai continuar por fazer.
Custa compreender o porquê deste governo não ter tido ambição e estofo para combater um dos mecanismos que mais desigualdades sociais produz. Do ponto de vista racional, só os denominados «rabos de palha», invocados pelo antigo deputado João Cravinho, servem de justificação para não se ter ido mais longe e se ter chegado mesmo à chamada inversão do ónus da prova.
Tendo a Inglaterra e a Irlanda invertido o ónus da prova para travar esta luta, não deixa de ser curioso que o governo tenha invocado a inconstitucionalidade da inversão do ónus da prova no combate à criminalidade económico-financeira, mas em relação à obrigação de as concessionárias das auto-estradas indemnizarem os condutores vítimas de acidentes causados por exemplo por animais este mesmo governo não teve qualquer dificuldade em inverter o ónus da prova considerando-as sempre culpadas até que provem o contrário.
É inadmissível que se continue a ver tantas pessoas ostentarem sinais evidentes de riqueza sem que as respectivas situações fiscais o permitam. É inadmissível que continuemos a assistir impávidos e serenos ao aumento das desigualdades sociais em que os detentores de poder e capital estão cada vez mais ricos e os demais estão cada vez mais pobres sobretudo por falta de oportunidades resultantes das diferenças de tratamento por parte do aparelho do Estado apesar de através da Constituição estar obrigado a garantir a igualdade.
Em matéria de combate à criminalidade económico-financeira, pelo constatável, nunca se esteve tão longe de cumprir Abril.
Fonte:
acrpeixoto@sapo.pt

Dengosas e mentirosas....



A dor das mulheres é subvalorizada em relação à dos homens, sendo considerada menos genuína e grave pelos profissionais de saúde, principalmente pelos profissionais do sexo masculino, segundo um estudo do ISCTE divulgado ontem.
O estudo, realizado a 205 estudantes de enfermagem e concluído no final do ano passado, mostra que a dor das pacientes do sexo feminino é julgada como menos genuína e a sua situação clínica considerada menos grave e urgente que a do homem.
"O projecto partiu de constatações de outros estudos que mostravam que as mulheres relatavam sentir mais dores que os homens e que a sua dor era mais vezes sub-diagnosticada que a dos homens", explicou à Lusa Sónia Bernardes, investigadora no Centro de Investigação e Intervenção Social no ISCTE e autora do estudo "Os enviesamentos de sexo nos julgamentos sobre dor lombálgica".
No entanto, só com este estudo se percebeu quais os factores que podem influenciar a apreciação da dor dos pacientes, nomeadamente em que medida o tipo de dor, a forma como o doente apresenta a sua dor e o sexo de quem julga influenciam a ocorrência de enviesamentos de sexo nos julgamentos.
A investigadora chegou à conclusão de que "a dor da paciente do sexo feminino é julgada como menos genuína e a sua situação clínica como menos grave e urgente que a do homem" em contextos de dor aguda e de curta duração ou na ausência de manifestações explícitas de ansiedade.
"Espera-se que as mulheres sejam mais expressivas e quando não apresentam sintomas de ansiedade e agem de forma controlada sem recorrer muito aos profissionais de saúde acabam por ser subvalorizadas", explicou Sónia Bernardes.
O estudo concluiu ainda que os estudantes de enfermagem do sexo masculino fazem mais enviesamentos de sexo nos julgamentos sobre a genuinidade da dor do que as estudantes do sexo feminino.
Perante estas conclusões, Sónia Bernardes sublinha que "as evidências mostram que embora as mulheres reportem sentir mais dores que os homens ao longo das suas vidas, as suas dores são frequentemente desvalorizadas, sub-diagnosticadas ou sub-tratadas comparativamente com as do sexo masculino".
Este estudo é um dos últimos da tese de doutoramento que começou há cerca de quatro anos e que deverá ser entregue ainda este verão.
O estudo data de finais de 2007, foi realizado a 205 estudantes de enfermagem e está enquadrado num projecto de investigação mais amplo financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Apenas 1 em cada 3 alunos acaba o Secundário em 3 anos



Em 2006, apenas 18% dos alunos que haviam iniciado os estudos do Ensino Secundário 3 anos antes entraram para a Universidade. Trata-se de um valor bastante baixo, não apenas quando comparado com os alunos do Secundário, mas também se se tiver em atenção que apenas uma parte da totalidade dos açorianos chega a este grau de ensino.
No ano lectivo de 2003/2004, haviam-se matriculado 1756 alunos, mas apenas 337 se matricularam na universidade 3 anos depois - o tempo que leva a concluir o Secundário sem perder nenhum ano.
Os dados fazem parte de um Estudo Sobre o Rendimento Escolar no Nível Secundário de Educação, elaborado em Dezembro de 2007 pela Divisão do Ensino Secundário e Profissional, da Direcção Regional da Educação.
Pior ainda, os números baixaram em relação ao ano de 2005 – quer em termos percentuais como totais. Em 2005, a percentagem de alunos que se inscreveu no Ensino Superior (os que tinham iniciado o Secundátio 3 anos antes) foi de 22,4%, representanto um total de 405 alunos; em 2006, o número de alunos baixou para 337 e a percentagem para os 17,9%.
Aliás, um dos problemas é realmente terminar o Secundário nos 3 anos em que normalmente deve ser realizado: apenas 1 em cada 3 alunos, em média, o consegue. Apesar de tudo, a este nível há uma ligeira melhoria: de 27,4% em 2005 para 30,2% em 2006.
No ano lectivo de 2005/06, dos 1756 alunos matriculados 3 anos antes, 564 concluiram o Secundário - enquanto que no ano anterior, dos 1802 inscritos 3 anos antes, apenas 405 concluíram.
Mas a relação com o Ensino Superior poderá estar a mudar. Em 2005, 82% dos alunos que terminaram o Secundário em 3 anos entraram para a universidade – o que parecia indicar uma relação forte entre os dois indicadores. No entanto, em 2006, essa percentagem baixou para cerca de 60%. Ou seja, praticamente 40% dos alunos optaram por não ingressar nas universidades (ou não o conseguiram fazer), enquanto que um ano antes esse valor tinha sido de apenas 18%.



Escola mais eficaz é a de Angra do Heroísmo

Em termos da conclusão em 3 anos, a Jerónimo Emiliano de Andrade é a melhor escola dos Açores, atingindo os 65% em 2006. A melhor escola de S. Miguel é a do Nordeste, com 40% (as restantes estão todas abaixo dos 30%).
Quanto à entrada para a universidade, a melhor escola é a das Lajes do Pico, com 42,9%. A melhor escola de S. Miguel volta a ser a do Nordeste, com 34,3%.
A escola da Lagoa é pior em ambos os indicadores: apenas 12,3% dos alunos concluem o Secundário em 3 anos, e apenas 9,7% continua para a universidade. Mas não é o único caso dramático. Apenas 17,8% dos alunos na Povoação terminam em 3 anos, e apenas 11,1% continua para a universidade. Na Ribeira Grande, também apenas 16,5% dos alunos terminaram em 3 anos e somente 14,9% continuaram para a universidade. Mesmo as escolas de Ponta Delgada não têm resultados animadores. Das 3, a das Laranjeiras é a pior, com 23,5% dos alunos a terminar em 3 anos e 20% a entrar para a universidade. Mas a Domingos Rebelo está perto, com 24,8% dos alunos a terminar em 3 anos e apenas 20,7% a irem para a universidade.
Fonte:
http://da.online.pt/news.php?id=139776

Histórias de infâncias feridas



A violência contra crianças e adolescentes traz danos irreparáveis. De 2000 a 2007, em Fortaleza, os abusos e exploração sexual contra crianças e adolescentes cresceram 208%
Quem vê a menina brincando com os próprios dedos nem imagina as cicatrizes que não se vêem. Mal olha nos olhos. Apenas 11 anos e uma infância ferida. Era ainda mais nova, quando a mãe mandou que ela fosse pedir dinheiro no sinal. Se não levasse dinheiro, a mãe, ela e os irmãos apanhavam da tia, usuária de drogas. Assim, dentro de casa, conheceu a negligência familiar, a violência física e psicológica. No sinal, foi vítima de abuso e depois de exploração sexual. A família sequer sabia por onde ela andava. Exposta, conheceu também o crack. Hoje, ela mora num abrigo. Longe da família, brinca com outras crianças, anda de bicicleta, dança e recupera a infância que mal teve.Ela não está só. A violência, nas suas variadas formas, é rotina de muitos meninos e meninas. De 2000 a 2007, o abuso e a exploração sexual, duas das formas mais graves de violência contra a criança e o adolescente, registraram crescimento de 208%. Juntas, as duas formas passaram de 140 casos para 431 no ano passado, segundo denúncias registradas pelo Núcleo de Enfrentamento à Violência contra Crianças e Adolescentes

Somadas a exploração e o abuso sexual às outras modalidades (violência física, psicológica e negligência familiar), o número de casos registrados pelo núcleo passou de 2.988 denúncias para 3.514 entre os anos de 2000 e 2007, um crescimento de 17,6%. Para Deusina Freire, assistente social do Núcleo, o número deveria ter crescido, mas muitas pessoas preferem não se comprometer, temem repressão e acabam silenciando. “Não é que (a violência) deixou de acontecer, é que ela não foi denunciada por alguém”, lamenta. Segundo ela, o número de denúncias cresce em algumas épocas por causa de campanhas ou casos de violência que ganham destaque na mídia, mas depois tende a diminuir.

Enquanto isso, crianças e adolescentes sofrem com a violência e suas seqüelas. É o caso da menina, que ainda chora com as lembranças. As pulseiras coloridas sinalizam a infância. Os terços nos braços, a necessidade de proteção. O vínculo afetivo com a mãe é forte, mas para que volte a sua casa, a situação de risco precisa ser revertida. No abrigo, recebe a visita materna com freqüência. “Quando tô com ela acho bom. Quando ela tá comigo se acaba de chorar”. O sonho é um dia ser delegada, “porque tem muita gente usando droga”. Mas a menina ainda não está matriculada na escola, porque precisa de documentação.

A família, que deveria ser como porto seguro, tem sido, na prática, a maior responsável pelos casos de violência contra crianças e adolescentes. “A violência está incorporada à cultura. Antes, a palmatória era adotada nas escolas, não era vista como agressão. A agressão dentro de casa se tornou comum”, afirma Deusina. Dos 2.899 casos confirmados em 2007, cerca de 54% têm como agressor a mãe, o que corresponde a 1.580 casos.

“Na maioria das nossas famílias, só existe a mãe. Ou os pais são separados, ou o pai foi embora. A mãe também está mais presente. É ela quem vai reprimir”, destaca. Já o pai é responsável por 19,14% (555 casos) do total, predominando situações de negligência e violência física. Casos de abuso sexual praticados pelo pai somam 40, sendo 28 contra meninas de 7 a 14 anos.

A negligência familiar é comum, preocupa e, segundo Deusina, geralmente, está relacionada à falta de condição financeira. “Manifesta-se também pela falta de afetividade dentro de casa. Tanto faz ir à escola ou não. Comer ou não. Se está em casa ou não. Os pais terminam se acomodando”, explica. Em alguns casos, os pais não procuram sequer saber onde o filho esteve durante o dia. Sem o devido acompanhamento, a criança se torna exposta a outras formas de violência, ela diz. A desestruturação familiar é uma característica também comum nos casos violência. “Estão aparecendo agora mais casos de avós como agressores. Eles assumem muitos netos, porque geralmente têm aposentadoria”, descreve.

> De 2000 a 2007, o número de denúncias cresceu. “Cresceu bastante. Poderia crescer mais, se houvesse mais campanhas. Nesses anos, a gente mudou muito de telefone e nem sempre fez campanha em seguida. Isso causa uma quebra”, destaca Deusina Freire, assistente social do Núcleo.> Entre as denúncias, os tipos de violência em que houve crescimento foram abuso e exploração sexual. Juntos, em 2000, eram 140. Em 2007, somaram 431 casos. Em outras modalidades (violência física, psicológica e negligência familiar), o número de denúncias diminuiu consideravelmente. “Não é que (a violência) deixou de acontecer, é que ela não foi denunciada por alguém”, lamenta.

> Até o mês de março de 2008, o Núcleo de Enfrentamento à Violência contra Crianças e Adolescentes já registrou 775 denúncias. Casos de privação dos direitos materno ou paterno, fuga do lar, violência fatal, rapto, entre outros, somam 293 casos.

> Só a violência física motivou 208 denúncias. Vale lembrar que a mãe e o pai são os principais agressores. Em seguida vêm padrasto, madrasta, avós, tios e irmãos

> Na seqüência, a negligência familiar motivou 133 denúncias, enquanto abuso sexual registrou 86, exploração sexual, 31, e violência psicológica, 24.

DICIONÁRIO

Abuso Sexual Violência sexual que pode se manifestar dentro ou fora da família da vítima. Manifesta-se pelo exercício arbitrário do poder para obter satisfação sexual. Na maioria dos casos, o abuso é cometido no próprio lar, mas também acontece em abrigos, unidades de privação de liberdade e até mesmo na rua. Esse tipo de violência se caracteriza pelo rompimento dos limites da intimidade pessoal sem o consentimento da vítima. Tem inerente uma relação de poder da pessoa agressora, geralmente mais velha, de quem a vítima depende intelectual ou economicamente.

Exploração sexual
Forma de violência sexual cometida contra qualquer pessoa, que envolve a atividade sexual para obtenção de lucros ou vantagens. No caso de a vítima ser criança ou adolescente, a prática é considerada crime.

Alterações na rotina e no modo de agir

Silenciosamente, a violência vai deixando suas cicatrizes, profundas e perenes. Os sinais se apresentam no corpo, por meio de hematomas e arranhões, cuja gravidade, muitas vezes, não condiz com a descrição feita pelos responsáveis. Conforme a psicóloga Socorro Alves, que atende no Núcleo de Enfrentamento à Violência contra Crianças e Adolescentes, a criança logo apresenta alteração de comportamento e de rotina. “Essa criança falta muito a escola, por conta de hematomas. Apresenta baixa auto-estima, concentração, atenção e rendimento escolar. Ela se alimenta pouco”, descreve, acrescentando que essa criança se torna vulnerável, insegura, retraída e sente muito medo.São sinais de alerta que devem motivar uma denúncia, originando uma investigação. No caso da exploração e do abuso sexual, a criança pode apresentar baixa auto-estima. “Ela pode apresentar algumas dores freqüentes na região da genitália. Pode acontecer também o desleixo em relação à aparência”, disse. Com relação à afetividade, Socorro afirma que essa criança tende a ser muito carente, confundindo o toque afetivo. “O agressor se aproveita dessa situação. Aos poucos, ele vai entrando e vai explorando esse corpo”, lamenta.

A longo prazo, o ciclo dessa violência pode se fechar, já que a pessoa tende a reproduzir os moldes de educação que teve. “Muitas vezes, o abusador sexual foi aquele que na infância ou adolescência foi vítima da violência”, destaca o gerente da coordenadoria de proteção social do Núcleo, Paulo Guedes. Sem falar na violência que expõe a criança a outros riscos. De acordo com Guedes, quando se aborda uma criança em situação de rua e se inicia uma conversa, percebe-se que ela perdeu o vínculo com a família porque era vítima de maus-tratos.

Abuso sexual constatado

As denúncias citavam apenas a violência física, mas com as investigações, o abuso sexual foi constatado. Marina tem nove anos e morava com uma prima de segundo grau. O companheiro da prima chegava mais cedo do trabalho e ameaçava bater, caso a menina não cedesse ao abuso. Na perna, viam-se marcas da agressão. No comportamento, também. Quando Marina chegou à Casa Abrigo, no Cristo Redentor, era violenta, agressiva. Com o acompanhamento psicológico, hoje, ela já aceita o trabalho das atendentes. Conforme a assistente social, Leda Maria Freitas, muitas vezes, quando a criança chega ao abrigo, é por um motivo e quando o caso é investigado, existem vários outros fatores ligados.”Geralmente, elas (crianças) refletem o que vivenciam no dia-a-dia. Elas chegam assustadas, retraídas, agressivas”, disse Leda. Assim como Marina, várias outras crianças no abrigo demonstram que não ficaram ilesas à violência. Um exemplo é a história dos quatro irmãos que levaram ao abrigo a aversão ao pai. Ambos tinham um comportamento apático. Em dias de visita, choravam e gritavam muito. O desejo de voltar ao lar ainda é distante. Segundo a assistente social, longe das famílias, as crianças são muito carentes de atenção e afeto.

Algumas não conseguem compreender a violência. É o caso de Luana, de 11 anos, que recebia um cuidado exagerado e foi ao abrigo por causa da suspeita de abuso sexual. O filho de sua madrinha, com quem morava, a acompanhava em todos os lugares, não lhe deixava pegar chuva, nem conversar com colegas. Nos intervalos da escola, estava lá para cuidar dela. A vizinhança estranhou e fez a denúncia. “Ele não era o pai, nem irmão, nem tio. Não tinha necessidade desse cuidado exagerado”, diz Leda. No entanto, Leda afirma que Luanao tem como um pai e, no começo, reclamava muito de saudades. “Hoje, ela está mais adaptada”.

*Os nomes de crianças e adolescentes usados na reportagem são fictícios.

Fonte: O POVO

Gangues na rede



Aumenta a violência entre jovens nas escolas: estudantes criam sites na Internet para agredir e intimidar colegas.

Adolescentes de 12 anos estão criando sites para agredir, coagir e denegrir a imagem de colegas de colégio. A violência, em muitos casos, sai das aulas de informática e chega a agressões físicas, dentro e fora das escolas. Foi o caso do menor P., de 12 anos. Ele virou alvo de chacota no site Euodeiocatuca, que, em linguagem chula, o ridicularizava, com insinuações de homossexualismo.

Depois que seus pais exigiram a retirada do site do ar e a escola suspendeu por dois dias o seu autor, G., de 12 anos, P. passou a ser agredido por grupos de alunos no recreio, à porta da escola e até fora dela, no curso de inglês. O resultado é que P. não sai mais de casa sozinho e mudou de colégio, devido à coação que sofreu. Há alguns meses, uma menina de 12 anos teve que deixar o colégio após um ataque semelhante de gangues da internet. Em um outro colégio, alunos da 6a. série, a maioria entre 11 e 12 anos, criaram um site durante a própria aula de informática e passaram a denegrir meninos e meninas das escola. O site, de conteúdo violento e pornográfico, registrava 300 entradas por dia e chocou os pais pela falta de respeito entre os colegas, agravada por um palavriado incompatível com a formação que desejavam para seus filhos.

“Se eu tivesse uma filha e falassem dela o que eu li no site sobre outras alunas, morreria de vergonha. A idéia de fazer um site é boa, a execução é sensacional, mas o conteúdo é de uma agressividade assustadora.

Hoje, meninos e meninas de 12 anos são altamente agressivos. Sobretudo as meninas, mais maduras, que aprontam, bebem e cansam de chegar de ressaca na escola às segundas-feiras. A agressividade entre os jovens na escola precisa ser discutida”, diz Claudia Ramos, mãe de um dos alunos.

Quando ela e o marido João Carlos Pinheiro, entraram no site feito pelos alunos num domingo de setembro, ficaram estarrecidos. Na manhã seguinte, levaram o caso à diretora da escola que já estava tomando providências para a retirada do site, junto ao provedor. Pais e alunos foram chamados para discutir o caso, mas a questão ainda está no ar. Como lidar com a agressividade sem limites dos jovens e substituí-la por solidariedade, respeito ao outro e exercício de cidadania? “O que eu achei mais absurdo foi que a maioria dos alunos não via nada demais no site. Para eles, é normal fazer isso com os colegas. É claro que, no meu tempo de colégio, alguns meninos e meninas eram difamados à boca pequena. Mas, com a internet, a agressão se tornou pública e muito mais violenta”, comenta Claudia.

A mãe do menor P., agredido pela internet e fisicamente, Jussara Ferreira, registrou a queixa de todas as agressões sofridas pelo filho, identificando a maioria dos menores agressores, na 5a. Promotoria de Justiça de Infância e Juventude. O diretor da escola diz que a instituição enfrentou o problema e puniu os responsáveis pela criação do site e pela briga no pátio, mas não pode se responsabilizar pelo que os alunos fazem na rua. O advogado Carlos Alberto Lima de Almeida, do Sindicato de Estabelecimentos de Ensino, diz que a escola só é juridicamente responsável pelo que ocorre no seu interior. Para ele, o único caminho para enfrentar a agressividade dos jovens é resgatar a família para o ambiente escolar. “Os pais deixam a formação da criança exclusivamente para a escola. Eles não sabem o que os filhos estão fazendo”.

Brincadeira virou caso de polícia

“No começo deste ano meu filho teve que fazer uma redação sobre uma vivência de discriminação. Ele contou que, no ano passado, numa festa, foi ridicularizado por não saber dançar funk. De brincadeira, ele disse para um amigo que lhe pagaria por umas aulas de funk. A partir daí, começou a ser rotulado de homossexual. Essa foi a redação de março. Em maio, na aula de informática, um menino criou um site com horrores sobre meu filho.

A punição do menino resultou numa série de espancamentos dentro e fora da escola. Meu filho não sai mais de casa sozinho e a escola diz não poder se responsabilizar pelo que os alunos fazem na rua. Ele está fazendo análise e saiu do colégio.” (Jussara Ferreira - mãe de uma vítima de gangues de redes).

A responsabilidade é da família

Para especialistas, a falta de limites e a ausência dos pais está formando jovens egoístas e incapazesde respeitar o outro. Para eles, o diálogo é essencial, mas sem perder a autoridade

Se o seu filho está sendo agredido num site, de quem é a responsabilidade? Da escola ou dos pais do agressor virtual? A questão é polêmica. Para o psiquiatra infantil e escritor de vários livros entre eles “Quem ama educa”, editora Gente, Içami Tiba, o problema da violência nas escolas — seja ela virtual ou real — tem suas raízes em casa, com a falta de limites. Segundo ele, soltar as rédeas, muitas vezes é uma atitude decorrente de um sentimento de culpa dos pais pela ausência e falta de tempo para os filhos.


“Querer compensar a falta de tempo fazendo todas as vontades dos filhos é uma armadilha. Essas crianças vão crescer sem aprender a respeitar o outro. Se elas fazem o que bem querem em casa, vão levar essa experiência para a escola”, afirma. Os pais são as primeiras vítimas da má educação dos filhos. “Quando o filho tem um comportamento inadequado em casa e os pais não interferem, eles automaticamente dão poder para que essa criança continue agindo assim não só em casa, mas na escola e em outros meios”, diz.

Influência da turma

Algumas instituições estão botando em prática a teoria da psicanalista americana Judith Harris, autora do polêmico best-seller “Diga-me com quem anda…”, que esteve entre os finalistas do prêmio Pulitzer. Nos Estados Unidos, o aumento das gangues virou tema de um filme de Martin Scorcese (com Leonardo Di Caprio, a ser lançado no Brasil em janeiro) e foi tema de um debate nacional entre psicanalistas e profissionais ligados à educação.

Judith Harris, mestre em psicologia pela Universidade de Harvard, defende a tese de que não adianta a criança ter bons pais na infância, pois um ambiente hostil na escola e a necessidade de inclusão numa turma de amigos pode transformá-la num adolescente violento. “Os pais pensam que têm muita influência sobre seus filhos, mas o comportamento dos meninos e das meninas resulta dos grupos de socialização a que pertencem. São esses grupos que vão determinar como as crianças vão construir a sua identidade e como vão se comportar fora de casa ”, diz Judith Harris.

Ela acredita que crianças e adolescentes, hoje, aprendem tudo, do modo de falar ao jeito de se vestir e se comportar com sua turma de amigos. Para eles, as relações entre jovens — de amizade ou de namoro — são “relações horizontais”, porque se dão entre iguais. Estas relações afetivas deveriam ser contrastadas com “relações verticais”, aquelas que se dão entre pessoas de idade e status diferentes, que exigem hierarquia e respeito, e na qual um serve de exemplo para o outro. Este modelo de “relações verticais” foi, por muito tempo, aquele adotado entre os pais e seus filhos.

As gerações atuais, porém, quebraram esta tradição. Os pais se tornaram ausentes na vida dos filhos. O resultado é a horizontalização das relações afetivas, sem a contrapartida da presença constante dos pais na vida dos filhos. “Uma das coisas mais impressionantes das pesquisas atuais com jovens é o fato de que eles parecem mudar totalmente de personalidade de acordo com o grupo em que circulam. Sua afetividade depende da aprovação do grupo e sua identidade é construída a partir desta aprovação”, acrescenta Judith.

A psicanalista paulista Andreneide Dantas concorda que, na adolescência, é comum que os filhos queiram fazer parte de um grupo, e isso implica adotar as atitudes dessa turma. “São as tais companhias, das quais os pais têm tanto medo. Ter amigos é saudável, mas o perigo aparece quando o adolescente adota comportamentos impostos pelo grupo, sem discernir se aquilo é bom para ele. Nesse ponto, é fundamental que os pais participem da vida de seus filhos”, afirma. Ela alerta que a participação não deve ser feita de forma horizontal, ou seja, os pais se colocando como iguais aos filhos, mas, ao contrário, a relação deve ser vertical.

“A idéia de que o pai tem de ser amigo do filho é muito perigosa. Amigo a gente xinga, briga. O pai tem de ter autoridade”, diz. Andreneide vê na falta de comunicação e de limites que muitos jovens encontram em suas relações familiares as razões para os casos de agressão entre estudantes. “No caso dos alunos que criaram um site para ridicularizar o colega, minha grande dúvida é: onde estavam os pais desses alunos? Criar um site não é tão simples assim. Eles não têm controle sobre o que seus filhos estão fazendo? Hoje, essa criança pratica uma violência contra um colega. Amanhã, se continuar sem limites, pode atear fogo num índio”.

Para o psicanalista José Renato Avzaradel, a agressão virtual é tão nociva e perigosa como outras formas de violência. Mas justificar tais ações como expressão da violência da sociedade, abandono ou agressividade dos pais é negar, segundo ele, a violência humana. “Quando nos deparamos com notícias como a do assassinato do casal Von Richthofen pela filha e pelo namorado ficamos chocados e até surpresos. Porque esquecemos ou então negamos a violência humana”, diz.


Marcia Cezimbra/Juliana Zaroni
Matéria publicada no Jornal “Diário de SP”
Cadervo “Viver em Família” em 08/12/2002

http://diganaoaerotizacaoinfantil.wordpress.com

Aprender para quê?



Educador diz que a escola não leva em consideração o desejo de aprender e está longe de responder às perguntas das crianças.

Rubem Alves é um crítico do sistema de ensino brasileiro. Mas suas opiniões não carregam rancor contra quem quer que seja. Para o educador e professor emérito da Unicamp, o problema da escola é que ela não leva em consideração o desejo de aprender das crianças e está respondendo às perguntas que somente os adultos acham importantes. ''Crianças fazem perguntas incríveis'', avisa. Para Alves, questionamentos como ''quem inventou as palavras?'', ou ''gato podia se chamar cavalo e cavalo se chamar gato?'', são a prova viva do interesse que todo garoto tem por conhecer o mundo. Mas essa curiosidade investigativa, que leva o aluno a estudar, está longe dos programas escolares. ''Existe uma expressão terrível na escola: grade curricular. Deve ter sido cunhada por um carcereiro'', diz. Polêmico, propõe a extinção do vestibular e sugere que o processo seletivo para as universidades aconteça através de um sorteio. Prestes a lançar mais um livro (Presente, Frases, Idéias e Sensações..., Editora Papirus), espera com a nova publicação levar ao público seus pensamentos sobre o amor e a vida. ''Nem que a obra seja lida na privada'', provoca.

ÉPOCA - O senhor afirma que a maioria das escolas é chata? Por quê?
Rubem Alves - Não é de hoje que a escola é chata. Ela sempre foi assim e isso acontece porque as coisas são impostas às crianças. A prova de que uma criança gosta de ir à escola é se, na hora do recreio, ela está conversando com os amigos sobre as coisas que a professora ensinou. E não se vê isso. Então fica evidente que elas gostam da escola por causa da sociabilidade, dos amiguinhos, por causa do recreio. Mas elas não estão interessadas naquilo que se ensina na escola. Você acha que um adolescente, vivendo na periferia, pode ter interesse em dígrafos (grupo de duas letras usadas para representar um único fonema)? Não tem interesse nenhum. Existe outra expressão terrível: grade curricular. Já brinquei que deve ter sido cunhada por um carcereiro. A criança está vivenciando problemas que não têm nada a ver com os assuntos das aulas. Mas os professores apenas se justificam, dizendo que o programa afirma que é aquilo que se deve ensinar e acabou. Eu diria que na escola tradicional não se leva em consideração o desejo de aprender da criança. Elas expressam isso através dos questionamentos que fazem.
ÉPOCA - Quais questionamentos?
Alves - Se você reparar, as crianças fazem perguntas incríveis para conhecer melhor o mundo. Uma delas é: ''Quem inventou as palavras?''. Há outras boas: ''Gato podia chamar cavalo e cavalo chamar gato? Por que canteiro chama canteiro? Devia chamar planteiro, que é onde ficam as plantas! Por que a chuva cai aos pinguinhos e não toda de uma vez? Se na Arca de Noé havia leões, por que eles não comeram os cabritos?'' E por aí vai. Elas estão fazendo perguntas interessantes, mas as respostas não se encontram nos programas.
ÉPOCA - Por que o modelo de educação existe há tanto tempo?
Alves - Porque existe certa presunção da nossa parte, da parte dos adultos, de que as crianças não sabem nada, de que elas são vazias. E de que nós é que temos o saber.Também achamos que só nós podemos determinar o que elas têm de aprender. Isso é o que Paulo Freire denominou de educação bancária. Você vai sempre fazendo depósitos na criança. Houve um diretor de um abrigo para crianças e adolescentes em Varsóvia chamado Janusz Korczak. No abrigo dele, eram os alunos que exerciam a disciplina. E Korczak costumava dizer: ''Vocês, professores, me dizem que é muito difícil ensinar às crianças. Estou de acordo. E vocês dizem também que é muito difícil descer às crianças. Estou em desacordo. O que é muito difícil é subir ao nível de sensibilidade e de curiosidade das crianças, ficar na ponta dos pés, falar brandamente para não machucá-las''. É por isso que a escola não muda. Porque as pessoas não estão preparadas para subir ao nível das crianças.
ÉPOCA - Há salvação para esse modelo de ensino?
Alves - Eu passei por esse modelo de escola. Outros amigos meus passaram e acho que não ficamos tão atrapalhados assim (risos). Aliás, tenho memórias muito interessantes. A escola tinha muitas coisas boas e, a despeito de tudo, a gente aprende. Mas é uma perda de tempo muito grande. As escolas estão cheias de pessoas maravilhosas, mas é tanta gente que sofre, é reprovada e repete de ano que não acredito mais nesse modelo. É preciso esquecer as maneiras tradicionais de fazer escola. Estamos tão acostumados com a idéia de que a escola tem corredor, sala, campainha, que podemos até pensar em melhorar isso, mas não pensamos que a estrutura pode ser diferente.
ÉPOCA - Então, por que as escolas não mudam?
Alves - Por uma porção de fatores. Um deles é a inércia. As pessoas se acostumam a fazer sempre a mesma coisa porque aí elas não têm trabalho. Se você tiver uma escola mais solta, nunca sabe direito o que vai acontecer, você não pode preparar a lição porque sempre o aluno pode fazer uma pergunta que você não sabe. Na escola tradicional, o professor é aquele que sabe a matéria e vai para a sala de aula acreditando nisso. Mas hoje as matérias estão todas na internet. Hoje, a função do professor é ensinar o aluno a pensar e a descobrir onde ele pode encontrar a resposta para as perguntas que ele tem. Essa é uma função nova e completamente diferente do professor. Os que estão acostumados a preparar a aula até costumam usar as fichas do ano retrasado. Dificilmente vão mudar.
ÉPOCA - Como convencer um professor a se atualizar?
Alves - Acho que muitos desses profissionais estão acordando para isso simplesmente porque não estão mais agüentando o tédio. Tenho dó dos professores. Às vezes os vejo como esses guias turísticos que vão todo dia ao mesmo monumento, levando um grupo diferente e repetindo as mesmas coisas. Isso é muito chato. Nenhuma pessoa merece viver uma vida desse jeito.
ÉPOCA - O senhor afirma, como educador, que a escola precisa dar aos alunos ferramentas para entender o mundo. O que isso quer dizer na prática?
Alves - Simplificando a minha teoria, digo que o corpo carrega duas caixas: uma de ferramentas e a outra de brinquedos. O que são ferramentas? São todos os objetos usados para fazer alguma coisa. Então, ferramentas não são fins em si mesmos. E elas são importantes porque nos dão poder. Um alicate é muito mais poderoso que meu dedo. E a primeira coisa que a escola tem de perguntar é: isso que eu estou ensinando é ferramenta para quê? Segundo: o aluno quer fazer isso? Porque não adianta você dar uma ferramenta para a pessoa, um martelo e um prego, se ela quer ser pintora. A ferramenta só tem sentido se tiver uma demanda, se eu estou querendo fazer alguma coisa. Se eu estiver interessado em plantar um jardim, vou aprender sobre as plantas, esterco e fertilizantes. O professor tem de perguntar a si mesmo isso. Se não for ferramenta, ela não vai ser guardada.
ÉPOCA - Por que não é guardada?
Alves - Se todos os reitores das nossas universidades prestassem vestibular, seriam reprovados. Porque eles esqueceram. E fizeram isso porque são burros? Não. Eles fizeram isso porque são inteligentes. Porque a memória não carrega coisas que não têm função. Também seriam reprovados os professores universitários e os dos cursinhos só passariam na própria disciplina. Eu seria reprovado. Tudo foi perdido. Já a caixa dos brinquedos está cheia de objetos que não servem para nada. Não há formas de usá-los como ferramentas. Lá estão a poesia de Fernando Pessoa, as sonatas de Mozart, as telas de Monet, pores-de-sol, beijos, perfumes, coisas que apenas nos dão felicidade. Assim se resume a educação.
ÉPOCA - Mas os alunos precisam ter conhecimentos básicos em áreas como Matemática, Biologia ou Química, não?
Alves - Para quê? Para passar no vestibular? Para esquecer tudo? Quem disse que tem de aprender isso? Por que eu tenho de aprender logaritmo neperiano? Não conheço ninguém que tenha usado isso. Se por acaso eu for precisar um dia na minha vida, estudo e aprendo. Não preciso me preocupar com isso na escola. E as pessoas não se dão conta de que todo esse conteudismo é perdido. Não sobra nada. Uma amiga minha, professora de Neuroanatomia na Unicamp, dizia que os piores alunos que ela tinha eram esses que apareciam em outdoors de primeiro lugar. Porque quando ela explica anatomia, um assunto cheio de complexidades, sempre tinha um que levantava a mão e perguntava: ''Professora, qual é a resposta certa?''. Ou seja, ele não entendia que esse negócio de ter sempre uma alternativa certa não existe. No caso do médico, com um doente terminal, o que ele faz: dá morfina ou continua com a quimioterapia? Não há resposta certa. É preciso aprender isso. E essas coisas não são ensinadas.
ÉPOCA - O senhor chegou a pregar o fim do vestibular. Por quê?
Alves - Já preguei, e quando falo nisso as pessoas acham que estou brincando. Quando eu era pró-reitor de graduação da Unicamp, queria um vestibular que avaliasse a capacidade de pensar dos alunos, e não a memória. Um professor me disse: a solução mais fácil é o sorteio. Dei uma gargalhada. Mas comecei a pensar e vi que é isso mesmo. A primeira coisa do vestibular que me morde não é decidir quem entra ou não na universidade, mas a sombra sinistra que ele lança sobre tudo o que vem antes. As escolas são orientadas para o vestibular, e os pais logo de saída querem as escolas fortes para os filhos passarem no vestibular. A primeira conseqüência de ter o sorteio é que as escolas seriam livres para ensinar. Elas não precisariam preparar os alunos para o vestibular. Então, as pessoas poderiam ouvir música, ler e fazer o que quisessem. Seria a libertação das escolas para realmente ensinar. Em segundo lugar, acabariam os cursinhos. Se tiver sorteio, ninguém pode reclamar. Sorteio é sorteio. Acabaria o sofrimento psicológico dos alunos, que têm a auto-imagem destruída. Também acabaria o conflito entre pais e filhos.
ÉPOCA - Mas um vestibular por sorteio poderia ter muita injustiça?
Alves - Várias pessoas me dizem isso. Claro que poderia, mas não do tamanho da injustiça que existe no atual sistema de vestibular, que nada mais é que uma grande perda de tempo, de dinheiro, de inteligência e de conhecimento. Também me perguntam se qualquer aluno, sem o menor preparo, poderia entrar na universidade. Respondo que não. Haveria no final do ensino médio um exame no país inteiro para verificar se os alunos atingiram um ponto mínimo exigido. E não seria classificatório. Quem passasse poderia participar do sorteio. Quem fosse reprovado poderia refazer a prova depois.
ÉPOCA - É polêmico...
Alves - Não acho, não. Acho que é uma solução óbvia. É mais inteligente que o modelo que existe atualmente. E menos danosa.
ÉPOCA - Como educador, o senhor não se dedica apenas a escrever livros voltados para o tema. Também tem publicações em formato de contos, prosa e versos. Por quê?
Alves - Eu não tenho livros de teoria. Escrevo contos e faço isso brincando. Então, sinto prazer mesmo quando estou falando sobre coisas teóricas. Mas sempre abordo o tema da educação por meio de metáforas. Inclusive sob a forma de poesia. Por isso muita gente não me leva a sério. Dizem que o Rubem Alves não é cientista. Não sou mesmo. E nem quero ser. Cientistas, já temos em excesso.
ÉPOCA - E este último livro nasceu como?
Alves - Escrevo muita coisa e, no meio dessas, de algumas eu gosto mais. É como se fossem snap shots, instantâneos da alma. Neste livro, há uma série deles. Você pode abrir em qualquer lugar. Não tem argumento, não quer provar nada, não há nenhuma tese. Uma vez escrevi uma crônica sobre a função cultural das privadas. Essa palavra é considerada feia. Quando se fala numa festa, o dono da casa retruca ''o banheiro'', ''o toalete'' e, quando você chega lá, é privada. Esse nome é tão bonito, tem a ver com privacidade, com estar sozinho, onde ninguém te interrompe. Lá é lugar escolhido por muitas pessoas para ler jornal. Um lugar de erudição, de conhecimento. Então, sugeri aos artesãos que fizessem umas miniestantes para instalar na frente do ''trono''. Nelas poderia ser colocada uma série de livros. Mas livros que tenham textos curtinhos. Aí a pessoa pode aproveitar para pensar, refletir. Acho que esse meu novo livro daria muito bem para esses momentos.

PALOMA COTES
Fonte: Revista Época