(...)A idéia antiga de transposição do Rio São Francisco, remonta a D.Pedro II, e representa pegar artificialmente parte de suas águas e levar para outra bacia que é muito assolada pelas secas. Isto já foi feito em outros países como Espanha, Peru e Estados Unidos, só pra citar os exemplos mais conhecidos.
O plano da transposição do chamado “Velho Chico” prevê dois eixos principais: o Norte e o Leste (veja abaixo). O eixo Leste será abastecido com águas captadas no reservatório de Itaparica, que irão abastecer principalmente o Rio Paraíba (PB), podendo depois ajudar a abastecer Recife (PE). Para o eixo Norte, a água será captada em Cabrobó (PE) e segue para os rios Jaguaribe (CE), Apodi e Piranhas-Açu (RN e PB). Neste último eixo as águas saem do São Francisco, subindo por bombeamento pelas elevatórias e descendo até o Rio Jaguaribe.
Estes eixos são canais condutores revestidos de concreto que, acoplados com aquedutos, túneis e pequenos reservatórios, poderão conduzir as águas a seus destinos (imagine uma estrada onde só passa água). A pergunta principal que todo mundo quer fazer é: afinal, vale a pena todo o esforço e o dinheiro alocados?
O Relatório de Impacto Ambiental (Rima) do projeto, que pode ser acessado no site do Ministério da Integração Nacional (veja aqui), é notadamente tendencioso a favor do empreendimento, sempre ressaltando o fato que o volume de água retirado do São Francisco será de 63,5 m³/s, isto é, cerca de apenas 3,5 por cento da vazão disponível no rio (em torno de 1850 m³/s), ficando o eixo Norte com 67 por cento e o Leste com 33 por cento do volume transposto.
A utilização da água está prevista para ser dividida em 71 por cento para irrigação, 25 por cento para consumo urbano e 4 por cento para perdas no sistema (valor subestimado, segundo alguns pesquisadores). Então, cerca de 45,1 m³/s serão usados para a irrigação. Quanto de área é possível irrigar com isso? Alguns técnicos apontam a necessidade de 0,5 a 1 litro/segundo por hectare irrigado. Vamos subestimar o consumo para 0,5 litro/segundo. Sabendo que 1 m³ é igual a 1 mil litros (uma caixa d´água), com 45.100 litros/segundo seria possível irrigar 90.200 hectares. Bacana, não? Mas o Polígono das Secas compreende uma área de 936.999.300 hectares (11,5 por cento do território nacional), então, a transposição seria capaz de irrigar 0,1 por cento do polígono.
Ah, Ronaldo, mas a transposição não é para toda essa área! Então, tá! As áreas que correspondem exclusivamente às bacias receptoras somam 21.245.300 hectares (informações do próprio Rima). Assim daria para irrigar dessas bacias, 0,4 por cento. Mas vamos supor que o dado de 0,5 litro/segundo esteja ainda superestimado e que o programa como um todo possa racionalizar o uso para algo como 0,25 litro/segundo por hectare. Isso irrigaria 1,05 por cento da área das bacias receptoras (180 mil hectares). Ainda assim muito pouco, não é mesmo?
A previsão de custo para a construção do projeto segundo o Rima é de 1,5 bilhão de dólares (divididos em 70 por cento para o Eixo Norte e 30 por cento para o Leste). Outros relatórios dizem que este custo varia de 2,7 a 3,3 bilhões e citam o governo federal como fonte deste número. O Rima diz que 1,5 bilhão é um custo baixo, se comparado aos gastos da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), que entre 1998 e 2000 aplicou quase 1 bilhão de dólares em recursos para atendimentos emergenciais em decorrência da seca. Bem, se isto for verdade, quanto deste dinheiro realmente chegou à população necessitada?
A Sudene (ela não tinha sido extinta?) é só um dos exemplos de que a segunda lei da termodinâmica se aplica às burocracias. Esta lei da física diz que quando uma dada quantia de energia (no caso dinheiro) é transformada de um tipo em outra (no caso de impostos em comida), uma parte é dissipada em forma de calor. Imagine o “calor” da Sudene nestes anos.
Ainda por cima, estamos no Brasil, e todo empreiteiro que trabalha para o governo sabe que se uma obra recebe o preço X, ela não sairá por menos de 3 a 6X (isto não é crítica. É fato). Foi assim , por exemplo, com a siderúrgica Açominas, que deveria ter custado 1,8 bilhão de dólares (aproximadamente o mesmo valor apontado pelo Rima para a transposição) e custou 7 bilhões.
Mesmo assim, o leitor pode argumentar que com o passar do tempo a área irrigada, ainda que relativamente pequena, pode dar lucros e “pagar” a obra. Certo, concordo que isto pode, em teoria, acontecer, mas o Vale do São Francisco ainda tem uma área potencialmente irrigável de mais de 2 milhões de hectares. Então, por que não irrigar estes mesmos 90 a 180 mil hectares na própria bacia? O custo da irrigação sairia pelo menos 10 vezes menor e, conseqüentemente, o preço do alimento também.
Bem, e o que vai acontecer com o rio? Infelizmente sou obrigado a dizer que o “Velho Chico” não é mais aquele, pois além de não possuir mais as matas galerias que o protegiam contra o assoreamento, hoje ele não é propriamente um rio, mas sim (como tantos outros no Brasil) um conjunto de reservatórios intercalados e conectados que, no seu caso, podem gerar 10 mil MW, ou 95 por cento da energia consumida no Nordeste.

Segundo as estimativas da Chesf, cada 1 m³/s de água retirada do rio equivale à perda de geração de 2,52 MW/ano, ou seja, os 63,5 m³/s reduzirão a capacidade de geração de energia do São Francisco em aproximadamente 2 por cento. Pouco, realmente muito pouco, se os reservatórios estiverem cheios, mas no quadriênio 1997-2000, o nível de armazenamento destes reservatórios foi respectivamente de 70 por cento, 40 por cento, 20 por cento e 36,8 por cento da capacidade total. Se o quadro de 2000 se repetir, a perda de geração sobe a 8 por cento, e isto não é pouco, principalmente pra quem ainda paga na conta de energia o tal do “seguro apagão”.
Ainda um dado interessante, mas pouco usado, é que 1 MW/ano é equivalente ao uso de 18.250 barris de petróleo/ano. Ao preço de 100 dólares o barril, os 2,52 MW custarão ao país 4 milhões 600 mil dólares/ano, que deixarão de ser gerados para transpor as águas para a região do polígono.
Quero ressaltar que estas estimativas de perda de energia são as mais otimistas, pois o Comitê Executivo de Estudos Integrados da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco - Ceeivasf, reunido em Salvador em maio de 1994, apontava para uma perda de 266,7 MW para os mesmos 63,5m³/s. Cem vezes mais do que a estimativa apresentada pelo Rima.
Ufa! O leitor deve estar cansado de ler todos estes números. Pois é, eu também estou. Então vamos analisar uma “meditação” feita no Rima sobre a dúvida: geração de energia elétrica ou combate à seca? O Rima pergunta (à página 16): “Qual seria o uso mais adequado da água: gerar energia elétrica ou ampliar o acesso da população à água?”. Mas que perguntinha mais capciosa. É como se a energia elétrica fosse luxo e não necessidade, como se a energia não ajudasse essa mesma população a gerar sua renda, inclusive comprar a sua água e tudo mais.
Este tipo de argumento é similar a outro que vi contra a transposição: aquele que diz que a irrigação só vai beneficiar os grandes agricultores do semi-árido que, com lavoura mecanizada, não empregarão “o povo”. Ai, ai, tudo tem limite. A desculpa do “tudo pelo social” (lema do governo Sarney) não cola. Nem para este caso, nem para nenhum. A revolução russa foi pelo “social” e acabou matando milhões de camponeses e criando outras ditaduras comunistas que ruíram de velhas. Fidel é pelo social e fez mais mortos políticos que as ditaduras direitistas somadas da América Latina (que também eram pelo e para o povo). Hitler criou o “carro do povo” (Volkswagen), etc.
Desta forma, o Rima, ao invés de discutir tecnicamente os prós e contras, quer sensibilizar seu leitor, substituindo a técnica (e ética) profissional pela culpa, isto é, tenta embotar no leitor aquele argumento sutil de que, afinal, é também ele, em parte, culpado das mazelas do Nordeste. Por isso, desligue seu computador, sua máquina de costura e deixe que a água siga para lá. Não compre frutas do Vale do São Francisco, não deixe os pobres de lá sem água, sem renda. Afinal, pobre de Minas não dá Ibope, só os do Nordeste agrário, com sua aura “literária”, graças a gênios como Graciliano Ramos.
Eu teria que falar mais um monte de coisas (inclusive sobre ambiente), mas gostaria de terminar, por enquanto, com outro número fornecido pelo Rima (à página 63): “A renda per capita da Região Nordeste passou de 860 reais por ano em 1960 para 2 mil 900 reais em 1997, e a agropecuária perdeu importância, pois representava, em 1970, 31 por cento das riquezas, passando para 11 por cento em 1997, perdendo para a indústria e o setor de serviços”. Mas que informação interessante! Ela mostra que talvez a agricultura não seja mesmo a vocação da região nordestina. E se o 1,5 bilhão de dólares for aplicado para valer (repito: para valer) em educação, ciência e industrialização?
E tentando responder ao título da matéria de Sici Adriana Rosa sobre a transposição, o sertão não vai virar rio e o rio continuará a ser o que é: um conjunto de reservatórios para gerar energia e irrigar o Vale do São Francisco. Ah, sim! Lá também tem uma pesca que vem diminuindo principalmente devido aos barramentos e à destruição dos habitats. Tirar apenas um pouquinho dos recursos não auxiliará essa situação, e pode ser a gota d´água.
































