Novembro 30, 2008

A ciência de viver bem



Pequenas mudanças de atitude podem melhorar sua saúde física, mental e material. Conheça 7 hábitos comprovados cientificamente que você deve adotar para ganhar qualidade de vida - e uma coisa que você não deve fazer
Texto Mariana Sgarioni

Use filtro solar. Coma frutas e verduras. Lembre-se do fio dental. Pratique pelo menos uma hora de exercícios físicos por dia. Passe longe do torresminho de bar. Aliás, falando em bar, trate de parar de encher a cara. Aproveite também para largar o cigarro. Beba dois litros de água filtrada por dia. E durma 8 horas por noite. Leia mais e sempre. Endireite as costas. Aprenda a meditar. Vá ao dentista regularmente. Se beber, não dirija. Faça um check-up por ano. Verifique se suas vacinas estão em dia. Não fique com o rosto colado na tela do computador. Trabalhe menos, divirta-se mais. Encha o prato com verduras, grãos e brotos. Esvazie-o de doces e gorduras. Limpe os ouvidos, mas cuidado com o cotonete. Sexo só com camisinha (aliás, este deveria ser seu mantra). Não dê pipocas aos macacos. Muito menos coma pipocas de desconhecidos.

Seguindo à risca essa lista de cuidados, é bem possível que você tenha uma vida mais saudável. E nem precisamos encher estas páginas com estudos que comprovem tudo o que está dito aí em cima – até porque, convenhamos, você já está cansado de saber. É bem possível, inclusive, que muita coisa daí esteja entre suas promessas para o início do ano. Então, resolvemos engordar seus planos para 2006. Pinçamos 7 outras coisas importantíssimas (mas bem menos óbvias) que você pode fazer – e uma que você NÃO deve fazer – para melhorar consideravelmente seu dia-a-dia. Fora tudo isso que está aí em cima, lógico. O que não der para cumprir, guarde para janeiro de 2007. Ou de 2008, de 2009...

1. Ouça música

Não se culpe se você é daqueles que passam o dia todo com um fone de ouvido cantarolando por aí. A música tem efeitos muito benéficos para a saúde física e mental. Já não é de hoje que os cientistas vêm estudando o fenômeno. Entre outras coisas, a música pode acalmar, estimular a criatividade e a concentração, além de ajudar na cura de uma porção de doenças.

Em 1999, uma pesquisa feita no Instituto de Psicologia da USP mostrou que crianças hiperativas conseguem atingir um grau de concentração muito maior se estiverem ouvindo música – e não estamos falando de jazz ou bossa-nova, mas de rock pesado. A trilha sonora da pesquisa, que acompanhou crianças entre 9 e 10 anos, era composta pelo guitarrista sueco Yngwie Malmsteen. Embora muitos roqueiros torçam o nariz para seu heavy metal melódico, é inegável que o cara faz um tanto de barulho.

Pois essa é uma bela resposta aos pais que implicam quando o filho estuda curtindo um som. Que o digam aqueles que aprenderam música desde pequenos. Pesquisas canadenses provaram que crianças que estudam música precocemente têm desenvolvimento intelectual melhor do que as que não tiveram nenhum contato com ela.

"A música é capaz de mudar a freqüência das ondas cerebrais. Já foi provado, por exemplo, que clássicos de compositores como Bach, Beethoven e Mozart deixam as ondas cerebrais com o mesmo comportamento, ou seja, com o mesmo potencial elétrico, de um indivíduo em repouso", afirma Luiz Celso Vilanova, médico neurologista, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). "Esse estado é chamado ritmo alfa e ocorre quando a pessoa está muito relaxada ou não está pensando em nada, como em algumas meditações."

Entre os clássicos citados, o austríaco Wolfgang Amadeus Mozart merece um destaque na sua discografia. O poder do compositor vem sendo alvo de diversas pesquisas. A Universidade da Califórnia em Los Angeles mostrou, no início da década de 1990, que a execução da Sonata para Dois Pianos em Ré Maior aumenta o número de conexões dos neurônios e melhora o raciocínio matemático em estudantes.

Uma vez que nosso organismo também tem um ritmo interno, ao entrar por nossos ouvidos, a música faz contato com este ritmo, interagindo com as atividades biológicas do nosso corpo. É assim que trabalha a musicoterapia, muito aplicada – e com bons resultados – no tratamento de pacientes com mal de Alzheimer, epilepsia, esquizofrenia e depressão, entre outras doenças. "Não existem indicações que comprovem que a música tenha o poder de curar alguém. Mas podemos dizer que ela está diretamente associada à promoção da saúde", afirma Luiz Celso. Isso significa que ainda não é possível prescrever um Mozart em jejum ou duas doses de Beethoven após as refeições. Feita essa ressalva, é certo que eles podem, sim, trabalhar na prevenção de uma doença que virou epidemia nos dias de hoje: estresse. Até porque está mais do que provado que música relaxa – e muito.

2. Prepare-se para envelhecer

Ninguém gosta muito da idéia de vir a ser velho, mas isso é a melhor coisa que pode acontecer a uma pessoa (pense na outra possibilidade). É bom reservar um tempo desde já para planejar como você pretende que seja sua velhice. Inclusive porque é bem possível que essa fase da sua vida dure bastante tempo. Graças aos avanços no saneamento básico, à descoberta de novas drogas e a fatores ambientais e de prevenção, estamos vivendo cada vez mais. Em 1900, a expectativa média de vida no Brasil ao nascer era de 33 anos. Hoje, já estamos na marca dos 67. Estudos demográficos apontam que, em 2025, o brasileiro viverá em média 75,3 anos e, por volta do ano 2050, 2 bilhões de pessoas no mundo terão mais de 60 anos. E, graças a esses mesmos motivos, os velhos estão ficando cada vez mais velhos.

Sendo assim, duas coisas precisam ser preparadas desde já: saúde e finanças. Afinal, ninguém quer viver até os 120 anos vegetando numa cama, sem grana e dando um trabalho danado para o filho de 96 anos.

Para começar, os cuidados para ter um envelhecimento saudável. Valem todos aqueles que falamos lá no início da reportagem – e que certamente você já ouviu milhões de vezes. É preciso dar ouvidos à máxima dos médicos, não há muita saída. "Os sinais de envelhecimento são conseqüência de desgastes físicos e emocionais que sofremos durante a vida. Os principais são o estresse, doenças, fumo, bebida em excesso, consumo de drogas, pouco sono e descuido com o descanso. Os desgastes são cumulativos, por isso, para envelhecer de forma saudável, é preciso tomar atitudes ainda jovem", diz a médica geriatra Mariana Jacob, do Rio de Janeiro. Portanto, arregace as mangas e comece desde já.

Agora, também é importante pensar como estará sua conta bancária. Se você é daqueles que confiam no INSS, é bom abrir os olhos. O envelhecimento em larga escala da população preocupa as finanças públicas do mundo todo. No Brasil, o déficit da Previdência Social ultrapassará R$ 40 bilhões em 2005 e vem sendo um dos maiores pepinos para os governos. Vá saber como será a aposentadoria daqui a algumas décadas...

Portanto, é melhor tomar outras atitudes, além de, claro, continuar colaborando para o INSS. "O ideal é a estratégia da formiga: guardar uma quantia todo mês e, quando parar de trabalhar, viver desse valor acumulado", afirma o administrador Ricardo Humberto Rocha. Pegue o lápis e anote a lição que ele ensina: se você começar a guardar dinheiro aos 30 anos, deve pensar em se aposentar 40 anos depois, ou seja, aos 70. Durante esse tempo, deve separar 300 reais todo mês. Aos 70, terá acumulado 300 mil reais (valores de hoje, sem projetar a correção monetária). Na pior das hipóteses, isso renderá 0,5% ao mês, ou seja, 1,5 mil reais. Juntando isso a uma aposentadoria do INSS de 3,6 mil reais (o casal), dará uma renda mensal de 5,1 mil reais. "Com 5 mil reais por mês, um casal de idosos deve viver bem: vai gastar 1,5 mil reais entre plano de saúde e remédios e o resto paga o condomínio, a alimentação e o lazer."

3. Tenha fé

Costuma ser mais feliz quem consegue encontrar um significado para a vida. Esse significado pode estar em qualquer coisa – da filatelia à filantropia. Mas é na religiosidade que a maior parte da população vai buscar essa razão de viver. E encontra. Pesquisas mostram que as pessoas religiosas consideram-se, em média, mais felizes do que as não religiosas. Elas também têm menos depressão, menos ansiedade e índices menores de suicídio.

"A fé nos conecta com outras pessoas, dá sentido e propósito para nossa existência, ajuda também na auto-aceitação e sustenta a esperança de que, no final, tudo ficará bem", diz o relatório de um estudo sobre o assunto do Centro Nacional de Pesquisas de Opinião dos EUA.

O poder da crença pode ir além do conforto espiritual, ajudando a curar doenças e aumentando a longevidade. Uma das razões para tanto passa longe do sobrenatural: a fé traz a reboque uma rotina mais regrada e vínculos mais sólidos com a família e a comunidade. Quem professa uma crença raramente faz bobagens como se embebedar e sair dirigindo a 160 quilômetros por hora.

"Existem evidências de que pessoas com atitude positiva e fé têm saúde melhor", afirma o psiquiatra Frederico Camelo Leão, que defendeu tese de mestrado sobre o assunto no Hospital das Clínicas de São Paulo. "Isso vale tanto para a espiritualidade intrínseca, quando a pessoa é voltada a seus valores internos, quanto a extrínseca, quando a pessoa se associa a grupos e cerimônias. Nos dois casos, há trabalhos que mostram que essas pessoas tendem a pontuar mais em qualidade de vida e na evolução do tratamento de doenças."

A fé propriamente dita pode ter efeitos benéficos no corpo humano. Já foi comprovado, por exemplo, por meio de uma pesquisa da Universidade Duke, na Carolina do Norte (EUA), que pessoas com fé religiosa conseguem melhorar o funcionamento de seu sistema imunológico. "Ter uma fé ativa é tão fortemente associado à longevidade quanto ao hábito de não fumar", afirma David Myers, professor de psicologia da Faculdade Hope, em Michigan (EUA).

Mas se você não se sente preparado para ligar-se a algum grupo religioso, não tem problema. A religião não é exatamente a única forma de explorar a fé, muito menos de dar significado à vida. Quem não se identifica com nenhum grupo religioso pode procurar outras crenças. E crer em algo não significa necessariamente ser em Deus. Um ateu convicto pode ter fé em seu próprio papel na história da humanidade, na justiça social, no desenvolvimento sustentável do planeta, na democracia. Ou ainda buscar o significado da vida em algum desafio diferente, como aprender a escalar uma montanha, cozinhar, tocar bateria, fazer mountain bike. Acreditar faz bem. Outro caminho é a prática do altruísmo. Isso, inclusive, já foi testado em laboratório: está comprovado que aumenta os índices de felicidade e bem-estar. Vale visitar uma creche, colaborar com uma ong, inscrever-se em um trabalho voluntário – enfim, fazer qualquer coisa que ajude alguém.

4. Ande mais a pé

Gastar sola de sapato é um dos melhores exercícios que existem, seja para a saúde física, mental, do meio ambiente ou do seu bolso mesmo. Sim, porque para fazer caminhadas você não precisa gastar rios de dinheiro com academias elaboradas, muito menos com personal trainer. Um par de tênis basta. E quando falamos de caminhada, não estamos nos referindo a nada profissional, que exija pista adequada e treinamento. Pode ser no seu bairro, no quarteirão da sua casa, ou até mesmo na escadaria do prédio, na pior das hipóteses.

Os benefícios físicos vão desde a melhora do sistema imunológico, a perda de peso e a oxigenação do corpo a até mesmo o aumento da nossa inteligência, acredite. Segundo artigo publicado na revista científica americana Trends in Neurosciences ("Tendências em Neurociências"), a caminhada aumenta a resistência cerebral e melhora o desempenho de leitura e aprendizado. E mais: beneficia a plasticidade do cérebro – a capacidade que ele tem de se adaptar a novas situações e realizar funções diferentes. Sem contar o efeito no humor. "Andar diminui o estresse e ajuda muito no combate à depressão", afirma o médico ortopedista Victor Matsudo, consultor da OMS (Organização Mundial da Saúde).

No corpo, a caminhada ajuda a diminuir a gordura intra-abdominal, aquela que se acumula entre as vísceras. É a famosa barriguinha de chope. Ela é considerada a forma mais perigosa de depósito de gordura. Estudos associam diretamente esses tecidos adiposos a vários problemas de saúde – desde ataques cardíacos, problemas coronarianos e hipertensão até a formação de pedras na vesícula biliar.

Mas ainda está dando preguiça? Bem, não é só da forma física que estamos falando – andar a pé pode ser algo muito mais divertido que fazer uns abdominais e uns supinos na academia, por exemplo. Se você resolver tirar apenas uma hora do seu dia para caminhar no seu bairro, vai perceber uma enorme diferença na sua socialização. "Caminhar permite que você observe muito mais as coisas ao seu redor, aproveite a natureza, reflita sobre a vida, pense em histórias, lembre fatos e acontecimentos, faça cálculos, tenha idéias, faça reflexões", diz Victor. Você vai entrar em lojinhas que nunca percebeu, pedir e dar informações, falar com gente desconhecida (nessas, você pode acabar até conhecendo o amor da sua vida). Às vezes também vai tomar um pouco de chuva e pisar em cocô de cachorro, mas isso faz parte do jogo.

Deixar o carro em casa de vez em quando já pode ser um bom começo para começar a se exercitar. O trajeto pode ser pequeno – uma caminhada de sua casa até a padaria ou à banca de revistas –, mas a diferença já aparece. De quebra, você ainda estará contribuindo para a diminuição da poluição, do trânsito, do consumo de combustível, entre outras coisas. Outra boa idéia é evitar o elevador e as escadas rolantes. São atitudes mínimas, mas que vão começar a colocar seu corpo – e, por tabela, a sua mente – para funcionar.

5. Tenha (pelo menos) um amigo

Todo mundo quer ser feliz, isso é tão verdadeiro quanto óbvio. O psicólogo Martin Seligman, da Universidade da Pensilvânia (EUA), passou anos pesquisando o assunto e concluiu que, para chegar à tal felicidade, precisamos ter amigos. Os amigos, segundo ele, resumem a soma das 3 coisas que resultam na alegria: prazer, engajamento e significado. Explicando: conversar com um amigo, por exemplo, nos dá prazer. Ao mesmo tempo, nos sentimos engajados, porque doamos muito de nós mesmos a ele. E ainda esse bom bate-papo faz com que nossa vida adquira um significado mesmo que seja momentâneo.

O cientista social americano Ronald Inglehart analisou diversas pesquisas sobre qualidade de vida e chegou à conclusão que os ingredientes para uma vida feliz incluem relações próximas. "Os homens têm o que os psicólogos apelidaram de uma profunda necessidade de se sentirem incluídos. Os que são apoiados por amizades íntimas se declararam muito felizes", afirma.

Outro benefício decorrente de ter amigos é manter a saúde em ordem. De acordo com o psicólogo social David Myers, professor da Faculdade Hope, nos EUA, as pessoas que têm amizades próximas ou são ligadas à sua comunidade (seja de colegas de trabalho, de religião ou de organizações por causas comuns) têm menos possibilidade de morrer prematuramente, se comparadas àquelas pessoas que têm poucos laços sociais. E perder esses laços aumenta o risco de ficar doente. "A amizade libera substâncias hormonais no cérebro que favorecem a alegria de viver e o bem-estar", diz Roque Theophilo, presidente da Academia Brasileira de Psicologia.

Mas será que todo mundo tem amigos? A resposta não é tão óbvia. Uma das queixas mais freqüentes no divã de analistas é a solidão. Gente que não encontra ninguém para dividir com sinceridade suas angústias. Ou que se sente só mesmo quando rodeada de pessoas – aquela impressão de ter mil amigos, mas na realidade não ter nenhum. É a chamada superficialidade das relações, tão discutida nos dias de hoje.

Segundo o psicanalista Contardo Calligaris, o único jeito de ultrapassar a barreira da solidão é justamente tendo pelo menos um amigo e um amor. Um só de cada, não precisam ser muitos. Mas isso dá um trabalhão dos diabos, não pense você que é fácil.

Contardo propõe uma situação hipotética: "Você é meu amigo e me telefona para jantar. Você passa o tempo todo falando de si mesmo. Quando eu começo a falar de mim, lá pelas tantas, você diz que precisa ir embora, pois acorda cedo no dia seguinte. Tudo bem, na próxima vez não vou aceitar o convite e você se sentirá sozinho." Isso não é amizade verdadeira. "Não se consegue uma amizade sem generosidade", afirma o psiquiatra. Para termos pelo menos um amigo, diz ele, precisamos nos livrar daquilo que ele chama de "avareza de si mesmo". Trocando em miúdos: doar-se, estar disponível, saber trocar. E, principalmente, olhar além do próprio umbigo.

6. Coma devagar

Parece até falatório de mãe, mas os benefícios de diminuir o ritmo das garfadas são incríveis. Para começar, ninguém ganha tempo comendo um sanduíche na frente do computador – o máximo que você ganha são quilos a mais, uma vez que, quanto mais rápido come, mais fome sente. "Existem dois centros que regulam a alimentação no cérebro: o centro da fome e o centro da saciedade", afirma Arthur Kaufman, coordenador do Prato (Projeto de Atendimento ao Obeso), do Hospital das Clínicas da USP. "O centro da saciedade demora até 20 minutos para mandar uma mensagem ao outro de que você está comendo e está satisfeito. Se você comer muito rápido, vai passar da conta, sentir o estômago estufado antes que seu centro de saciedade tenha tempo de informar seu corpo de que já está bom e você deve parar de comer." É isso que acontece numa churrascaria rodízio com aqueles que comem na mesma velocidade em que os garçons trazem os espetos.

Isso quer dizer que, se você comer mais devagar, provavelmente vai comer menos sem ter que fazer nenhuma dieta. O que será um ganho danado à sua saúde. Fora a redução do peso e do risco de doenças aliadas à obesidade, há diversas pesquisas que apontam que devemos diminuir a quantidade de comida se quisermos viver mais. Por exemplo, uma experiência conduzida na Universidade de Wisconsin em Madison, nos EUA, mostrou que a redução do consumo calórico entre 30% e 40% fez aumentar a sobrevida de ratos até os 38 anos – isso corresponderia a aproximadamente 114 anos em humanos.

Mas e o prazer de comer? Tem razão, é um dos principais prazeres da vida. Mais um motivo para você comer devagar: vai saborear melhor a comida, apreciar o prato e o momento, e, de quebra, não vai ficar empanturrado. "Não há nenhum problema em comer um hambúrguer e uma porção de batatas fritas, desde que você saboreie o sanduíche, sinta o gosto do que está comendo e comer seja sua atividade principal naquele momento", afirma Heloísa Mader, representante do Movimento Slow Food em São Paulo.

Em oposição à moda do fast food, o slow food prega que incrementar a qualidade da comida e desfrutá-la com calma é uma maneira simples de fazer o nosso cotidiano mais feliz – conceito, aliás aprovadíssimo pela Associação Dietética Americana. O movimento quer que as pessoas voltem a curtir a refeição, e não comer por compulsão ou como uma forma de compensar a ansiedade. Lembre-se disso quando for buscar um sanduba correndo na padaria para comer entre um trabalho e outro na frente do computador. "Isso é pior ainda. Quando está distraído, você não percebe o sinal do centro de saciedade e passa da conta. E o pior: como não registra a saciedade, dali a 30 minutos vai ter fome de novo", diz Arthur. E já que o convencemos a comer mais devagar, aproveite para compartilhar as refeições com quem mais gosta – isso não inclui o computador nem a televisão, que fique bem claro.

7. Desligue a TV

Ninguém está dizendo aqui para você nunca mais assistir à televisão. Mas que você poderia diminuir o tempo em frente ao aparelho, isso você poderia. Até porque televisão em excesso não faz bem. Telespectadores inveterados podem ter suas funções cognitivas alteradas, problemas de postura e articulações, além de tornar-se dependentes da telinha: essa é a conclusão de um amplo estudo realizado em 2003 nos EUA pelos pesquisadores Robert Kubey, diretor do Centro de Estudos de Mídia da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, e Mihaly Csikszentmihalyi, professor de psicologia da Universidade de Claremont, na Califórnia.

Sim, o hábito de se largar no sofá e assistir a qualquer porcaria que esteja no ar pode deixar as pessoas viciadas no relaxamento que a TV produz. O problema é que essa sensação gostosa vai embora assim que o aparelho é desligado – é igualzinho ao vício em substâncias químicas. O estado de passividade e a diminuição no grau de atenção, no entanto, continuam. Quando vista por mais de 20 horas por semana, a televisão pode danificar as funções do lado esquerdo do cérebro, reduzindo o desenvolvimento lógico-verbal.

Faça uma continha rápida: se você assistir à televisão por cerca de 3 horas por dia, quando chegar aos 75 anos, terá passado 9 anos inteiros da sua vida vendo TV. É tempo para chuchu sem exercitar a mente nem o corpo, o que pode acarretar sérios problemas, desde obesidade a até mesmo doenças degenerativas cerebrais, como demência e mal de Alzheimer.

O cérebro, assim como o corpo, também precisa ser exercitado. Só que ninguém se lembra dele nas academias de ginástica, por exemplo. A diminuição da capacidade mental associada à idade ocorre por causa de alterações nas ligações entre as células cerebrais. Há indícios de que manter o cérebro em atividade ajuda a aumentar as reservas de células e conexões cerebrais. "O que é bom para seu coração é bom para seu cérebro. Tudo aquilo que você fizer para prevenir doenças coronárias também vai ajudar sua cabeça e assim diminuir o risco de desenvolver mal de Alzheimer", indica a Associação Alzheimer, órgão americano de ajuda e informação aos portadores da doença.

Segundo um estudo publicado na revista científica Nature, ratos e outros roedores estimulados com brinquedos e aparelhos para exercícios desenvolveram células novinhas em folha na região do cérebro envolvida com aprendizado e com a memória. Portanto, mande ver nas atividades físicas. Agora, é lógico, lembre-se de botar a cabeça para funcionar também. Ler, escrever, jogar jogos de tabuleiro, aprender coisas novas, fazer palavras cruzadas, resolver passatempos de lógica: todas essas atividades mantêm seu cérebro ativo e, quem sabe, criam reservas de células e conexões. Estudar sempre algo diferente pode ser um bom jeito de obrigar sua cabeça a pensar mais. Outra idéia que também contribui para romper a inércia cerebral é praticar atividades ao ar livre – no mínimo, elas vão arrancar você do sofá e da frente da televisão.

Não leve nada disso tão a sério

Se você leu esta reportagem até aqui – e levou tudo o que está escrito em consideração – deve estar cheio de tarefas a cumprir. De fato, são dicas que podem ajudá-lo a melhorar consideravelmente seu dia-a-dia. Mas, sinceramente, não precisa tanta rigidez. Se der para fazer tudo, ótimo. Se não der, tudo bem também. E não precisa levar tão a ferro e fogo as milhares de pesquisas que mandam comer isso e fazer aquilo, caindo em depressão profunda se "fracassar" em um ou dois itens. Afinal, são as escapulidas que tornam a vida da gente divertida – ou você acredita mesmo que todas as nutricionistas esguias e saudáveis só comem refeições balanceadas e todos os médicos fazem ginástica todo santo dia? Essas pessoas também capitulam à preguiça, comem demais e xingam a mãe dos outros no trânsito.

Radicalismos e rigidez com regras são um perigo. Podem se tornar uma obsessão e isso não é bom – mesmo que seja por uma vida saudável. O melhor mesmo para a saúde é o equilíbrio, a flexibilidade. "Todos os meus pacientes que mudaram o comportamento e se tornaram mais flexíveis tiveram uma melhora no estado de saúde. Pessoas muito rígidas, controladoras e perfeccionistas tendem a ter mais doenças do coração", afirma o cardiologista Alan Rozanski, do Departamento de Medicina da Universidade Colúmbia, Nova York. Os oncologistas também vêm avançando em estudos que comprovam ligação entre esse tipo de comportamento humano e o desenvolvimento de câncer – chama-se "padrão biopsicossocial de risco de câncer". Ele é caracterizado principalmente por pessoas que negam ou suprimem as emoções, são muito racionais e têm um controle muito rígido que as impede de se expressar. Esse perfil diminuiria a competência do sistema imunológico, seja para prevenir o câncer, seja para combatê-lo durante o tratamento, ou para impedir que ele reincida.

Edward Creagan, médico oncologista da Clínica Mayo, em Rochester, EUA, é um ardoroso defensor da flexibilidade para a manutenção da saúde. Mas como chegar até ela? "Ser resiliente não é seguir os clichês de ‘se a vida te deu um limão, faça uma limonada’. Ser resiliente é não ignorar seus sentimentos, suas dores", diz. "É também perceber que nem sempre você tem que ser forte, você pode pedir ajuda. Esses são fatores fundamentais para lidar bem com o estresse e com as situações ruins da vida. Essa capacidade protege você e seus familiares de doenças como depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, doenças cardíacas e diabetes". Está vendo? Até o corpo agradece. E aí? Vai uma picanha no capricho? Com polenta frita?

Geriatria em Comprimidos: Para Todas as Idades - Mariana Jacob, José Olympio, 2004

Fonte: http://super.abril.com.br/superarquivo/2006/conteudo_421733.shtml

Novembro 21, 2008

Hiperatividade: Escola e Família



*PAULA DELY
(CRP 08/08505)
A escola se queixa: "Esse menino não pára!"; "Parece que ele está sempre com a cabeça no mundo da lua!"; "Ele não consegue acompanhar porque não presta atenção no que faz!"; "Esse menino precisa de limites!". Quando os pais ouvem esses comentários dos professores, uma pergunta muito séria ronda sua cabeça: até que ponto a "energia" ou a "distração" do filho são normais ou são sinais de que há algo realmente errado acontecendo?

Responder a essa pergunta não é nada fácil. Afinal, que criança não é, em certa medida, desatenta, agitada ou impulsiva? Pode-se desconfiar de que há algo de errado quando todas essas características estão presentes na criança de maneira exagerada.

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (denominação correta da conhecida hiperatividade) é um quadro que ocorre antes dos 7 anos de idade e, segundo algumas estimativas norte-americanas, atinge cerca de 3% a 5% das crianças, sendo muito mais freqüente em meninos do que em meninas. A criança com déficit de atenção e hiperatividade apresenta problemas em quatro áreas: atenção, controle de impulsos, atividade motora e baixo limiar para a frustração. A seguir, vamos descrever brevemente as principais características desse quadro, mas é importante lembrar que os problemas causados pelo déficit de atenção e hiperatividade podem variar em gravidade de acordo com a criança e a forma como os pais e a escola lidam com o problema.

Em relação à atenção, a criança apresenta dificuldade em se concentrar nas tarefas que deve realizar e costuma distrair-se com facilidade. Essa dificuldade, no entanto, não significa que ela seja "incapaz" de se concentrar. Em determinadas circunstâncias, pode até fixar sua atenção em uma história que está sendo contada por um adulto ou em algum programa de TV. Na sala de aula, por exemplo, a criança pode inicialmente entender o que deve fazer e começar a tarefa, mas a movimentação do colega ao lado ou um barulho do lado de fora podem fazê-la "perder o fio da meada", diferentemente do que acontece com outras crianças, que conseguem permanecer atentas ao que estão fazendo.

Controlar impulsos é uma tarefa difícil para todos nós: quem, por exemplo, já não teve vontade de "pular no pescoço" de alguém que fala algo desagradável? O problema com a criança hiperativa é que ela tem muita dificuldade de se controlar em situações que exigem planejamento, reflexão sobre conseqüências futuras ou seguimento de regras. Por exemplo, ao jogar bolinha de gude com outras crianças, ela pode não conseguir esperar a sua vez e "atropelar" os colegas. Ao resolver um problema de matemática, pode não conseguir planejar todos os passos que deve seguir e começar de qualquer forma. Mas, de novo, é importante lembrar: isso não significa que a criança nunca vai conseguir fazer um planejamento ou se controlar diante de dificuldades.

O excesso de atividade motora é o sinal mais característico e conhecido do quadro: a criança tem dificuldades em se manter sentada por muito tempo e, em geral, movimenta-se muito e o tempo todo. Esse exagero pode ocorrer também em relação às emoções, já que muitas crianças com déficit de atenção e hiperatividade costumam ter reações emocionais muito intensas, sejam elas de raiva, alegria ou frustração. Em geral, é o excesso de atividade motora que leva os professores a fazer reclamações quanto aos limites que são dados às crianças.

E, por fim, a dificuldade em lidar com a frustração faz com que a criança desista muito facilmente de seus objetivos. Em outras palavras, diante de dificuldades para alcançar algo que deseja ou para terminar uma tarefa (por exemplo, um exercício no caderno), a criança acaba não indo até o fim, ainda que os pais ou os professores insistam para que ela tente mais uma vez.

É muito importante identificar corretamente se a criança realmente tem o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) para que ela receba atendimento adequado o mais rápido possível. Em geral, quando a criança apresenta o quadro e não é diagnosticada (e, por conseqüência, não recebe o atendimento adequado), as suas relações com a família, escola e amigos vão ficando cada vez piores: ela é muito criticada por todos, não consegue se sair bem na escola e os colegas tendem a se afastar. O resultado? Um grande sentimento de incapacidade, dúvida sobre o amor das outras pessoas e uma auto-imagem muito ruim ("eu não sei fazer nada direito mesmo").

A criança com TDAH não é distraída ou agitada porque quer. Ela se comporta dessa forma porque não consegue ser diferente! Por isso, se você desconfia de que a conduta do seu filho (ou seu aluno) pode ser um sinal de que ele tenha o TDAH, procure um neuropediatra ou um psiquiatra infantil (ou então sugira que os pais da criança façam isso). Esses profissionais poderão fazer o diagnóstico adequado e receitar medicamentos, se for necessário. O trabalho de um psicólogo será necessário para ajudar a criança a lidar com suas dificuldades e com as pessoas com quem convive.

Algumas dicas para lidar com a criança com TDAH:
A criança precisa de estruturação. Um ambiente organizado ajudará na organização interna da criança.
Nunca dê mais que uma instrução ao mesmo tempo. A criança certamente se esquecerá de alguma coisa.
Ao falar com a criança, olhe sempre nos olhos dela. Isso a ajudará a manter a atenção no que você está dizendo.
Repita sempre as instruções, pois a criança precisa disso.
Na escola, o professor deve procurar dar tarefas curtas para a criança. Se a for longa, é importante tentar dividi-la em tarefas menores para que a criança não tenha a sensação de que é longa demais e que nunca vai terminar tudo aquilo.
Sempre valorize as coisas boas que a criança faz e as tarefas que consegue cumprir: ela provavelmente está cansada de saber de suas limitações, mas poucas vezes tem a oportunidade de ouvir sobre suas conquistas.

*Graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná,
foi coordenadora do Setor de Psicologia da Vara da Infância e da Juventude de Curitiba.
Atualmente, realiza trabalho clínico com adolescentes e adultos e
presta assessoria para projetos sociais voltados a jovens e suas famílias.

Novembro 15, 2008

Feliz 2010...



Pode ser uma piada antiga desejar "Feliz 2010" no final de 2008, como se o ano de 2009 já estivesse comprometido e sem solução; ficamos na dúvida entre a oportunidade da piada ou o risco de perder o leitor por alastrar o desânimo, mas vale a pena chamar a atenção para aspectos mais amplos neste momento de perplexidade.
O economista Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001, fez previsões sombrias em sua visita ao Brasil este mês, afirmando que, na melhor das hipóteses, se tudo for feito corretamente para corrigir os rumos, a desaceleração da economia americana pode durar até 18 meses. Torcendo pelo acerto, é oportuno lembrar que não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe. Assim, pelo menos, já teríamos um horizonte pela frente, com a expectativa razoável de que a recessão não seja tão profunda e disseminada por todos os setores.
Seria o aumento da renda, entretanto, a única condição indispensável para melhorar a qualidade de vida da população? É assim que vem sendo tratada a discussão sobre a recessão, que não necessariamente precisará agravar a "infelicidade nacional bruta". Nosso presidente, com a verborragia solta que o caracteriza, tem sempre mencionado "um Natal melhor", referindo-se exclusivamente ao lado material da data, desprezando significados espirituais, não obstante o beija-mão recente com o Papa. Será esta a única dimensão possível?
Para a população do primeiro mundo que superou a barreira da subsistência, como ocorre aqui com as classes média e alta, tornar as pessoas mais felizes não tem necessariamente uma relação direta com o nível de renda. Pelo menos é o que diz um dos mais renomados economistas ingleses, Richard Layard, em seu livro "HAPPINESS -- Lessons from a New Science" (publicado em português pela Editora Best Seller, 2008, com o título "Felicidade -- Lições de uma Nova Ciência").
O estudo foi comentado na página de economia e investimentos do New York Times, numa coluna habituada a discutir os melhores retornos de aplicações financeiras, onde se registrava a opinião paradoxal de Layard de que “dinheiro não traz a felicidade”, para usar um ditado brasileiro.
Layard faz um vasto uso da teoria econômica, de pesquisas e levantamentos para provar que nos últimos 50 anos a renda de alguns dos países mais ricos mais do que dobrou o que, entretanto, não tornou as pessoas mais felizes. Como assim, é possível dizer se as pessoas estão mais ou menos felizes? Através de diversos coeficientes bem formulados, é possível medir o nível de felicidade das pessoas, seja em pequenos grupos ou na dimensão nacional. Desde enquetes que perguntam diretamente se as pessoas se sentem “muito felizes, razoavelmente felizes ou infelizes”, até medições avançadas de ondas magnéticas cerebrais em tomografias, que diferenciam se há mais atividade do lado esquerdo ou direito do cérebro, até como funciona o mecanismo da busca de status, isto é, do sentimento advindo da comparação da posição de cada indivíduo em relação ao seu grupo.
Uma das pesquisas reveladoras correlaciona as atividades eleitas como as mais prazerosas do ser humano (sexo, amizade, lazer e alimentação) e as menos agradáveis (trabalho - em certas circunstâncias, afazeres domésticos, transporte urbano) com o tempo despendido por dia em cada uma destas ações, isto é, quanto se dispõe ao longo do dia para as atividades boas e quantos momentos nas tarefas consideradas aborrecidas.
A ânsia pelo status fica evidente na enquête que fez a seguinte indagação: você prefere ganhar R$ 50 mil por ano, enquanto seu grupo de amigos ganha R$ 25 mil, ou prefere ganhar R$ 100 mil por ano, enquanto os outros ganham R$ 250 mil? Por incrível que pareça, a maioria prefere a primeira situação, em que recebe a metade em valor absoluto, mas o dobro relativamente.
As pesquisas concluem que, nas Olimpíadas, os atletas ganhadores de medalhas de bronze são mais felizes do que os premiados com as medalhas de prata: os de bronze se comparam com os atletas que não alcançaram nenhuma medalha: os de prata, se sentem infelizes porque não mereceram o ouro. Outro exemplo mostra que, com a unificação da Alemanha, os alemães orientais melhoraram seu padrão de vida, mas não ficaram mais felizes, pois passaram a se comparar com os alemães ocidentais mais ricos e não com seus vizinhos de países do antigo bloco soviético. Um dos segredos da felicidade estaria, assim, em aproveitar o que temos, mas sem comparar com situações melhores.
Layard ressalta os aspectos psicológicos ou sociológicos com o drama do desemprego, que estaria associado não só ao crescimento econômico do país e a perda ou diminuição real de renda das famílias envolvidas, mas também considerando que as pessoas se sentem infelizes por se sentirem excluídas e não estarem contribuindo para a sociedade, em prejuízo da auto-estima e dos relacionamentos pessoais associados a seus trabalhos.
Parte dos brasileiros excluídos e semi-alfabetizados está ainda distante destas inquietações mais sofisticadas, mas que valem a pena ser levadas em conta aqui: afinal, uma das conclusões de Layard é de que um pequeno aumento de renda causa muito mais felicidade aos necessitados do que aos que estão na faixa de consumo médio. No momento atual, vamos testar o que acontece com os registros de felicidade numa fase de redução de renda, ainda que certamente temporária.

Paulo Gurgel Valente - www.profitprojetos.com.br

Novembro 11, 2008

Por que os gays são gays?


A ciência está cada vez mais próxima de explicar um dos maiores mistérios do comportamento humano
Texto Eduardo Szklarz


Bar depois do expediente, cervejinha gelada, papo animado sobre colegas de trabalho. De repente, alguém faz a revelação bombástica: "Sabe o fulano? É gay!" Você provavelmente já participou de uma conversa como essa. Ela acontece todos os dias, nos melhores bares e também nas melhores famílias. Depois do silêncio, a mesa se divide entre os completamente surpresos e os que "sempre tiveram certeza, estava na cara que ele era". Até que alguém finalmente pergunta: "Mas por quê? O que levou fulano a ser diferente da maioria?" E começa a rodada de especulações: "A culpa é da mãe repressora." "Ele foi violentado pelo pai." "Não gostava de futebol." "É genético, desde pequeno tinha trejeitos afeminados." "Só é gay porque está na moda."

Pois as mesas de bar mais uma vez provam estar entre as entidades mais antenadas do planeta. O debate sobre a origem da orientação sexual é hoje um dos mais quentes da ciência – e também um daqueles em que os resultados parecem mais surpreendentes. Historicamente, as respostas se dividiam entre os que defendiam que uma pessoa nasce gay e as que sustentavam que nos tornamos gays, bi ou heterossexuais dependendo do ambiente em que vivemos.

Mas, nos últimos anos, pesquisadores começaram a apontar novos – e surpreendentes – caminhos. As maiores novidades vêm dos estudos biológicos. Eles indicam que a formação da sexualidade acontece antes do nascimento – em parte pelos genes, mas também por fatores que atuam no desenvolvimento do feto. Não há nada comprovado e ainda falta muito a ser desvendado, especialmente sobre a influência do ambiente onde a criança é criada em sua sexualidade. Mas as evidências estão causando uma revolução no pensamento científico. E se comprovadas, poderão subverter noções básicas que construímos ao redor dos gays.

Que importa?

Muita gente acredita que a ciência deveria deixar essa polêmica de lado. O argumento é que gays existem e pronto – não há nada além disso para entender. Para elas, perguntar sobre o que leva uma pessoa a ser gay é uma atitude preconceituosa que supõe que a heterossexualidade não precisa de explicação. Cientistas, no entanto, defendem a necessidade de pesquisa, argumentando que elas podem acabar – ou pelo menos diminuir – preconceitos. "Os homossexuais são muitas vezes acusados de exibir um comportamento não natural. A única maneira de refutar essa acusação é pesquisar as causas das diferentes orientações sexuais", diz a bióloga transexual Joan Roughgard, professora da Universidade Stanford e autora do livro Evolution’s Rainbow ("Arco-Íris da Evolução", sem tradução em português), em que analisa cerca de 300 casos de comportamento homossexual entre animais. Para o antropólogo Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia, as pesquisas são importantes porque desconstroem a noção religiosa milenar de que homossexualidade é um comportamento diabólico e patológico. "Se comprovarem que há uma raiz genética, estará claro que a homossexualidade está nos próprios desígnios do Criador", afirma.

Outro argumento pró-pesquisas diz que saber a origem do próprio comportamento aplaca um pouco a ansiedade. "Vemos a preocupação do homossexual em não ser discriminado, mas também a dos pais, que se sentem responsáveis e querem entender até que ponto esse sentimento procede", diz Carmita Abdo, psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo e coordenadora do projeto Sexualidade, maior pesquisa já feita sobre os hábitos sexuais dos brasileiros.

As tentativas de explicar a origem da homossexualidade incluem teorias que vão da mitologia à sociologia. No século 19, psiquiatras concluíram que ser gay era um transtorno mental causado por equívocos na criação da criança – e essa idéia reinou na maior parte do século 20. Mas se essa teoria estivesse correta, então seria possível evitar e até reverter quadros homossexuais. Ao perceber o fracasso total das terapias de "cura", em 1973, a Associação Psiquiátrica Americana achou melhor retirar de sua lista de distúrbios mentais a atração sexual por pessoas do mesmo sexo. Foi quando o termo mudou de nome: homossexualismo deu lugar a homossexualidade – porque o sufixo "ismo" denota doença. A essa altura, os cientistas já consideravam ser gay uma variação absolutamente natural do comportamento humano.

Até que em 1991 o neurocientista anglo-americano Simon LeVay, gay declarado, anunciou ter encontrado diferenças em cérebros de homens gays e héteros. LeVay examinou o hipotálamo, zona-chave da sexualidade no cérebro, e descobriu que a região chamada INAH-3 era entre 2 e 3 vezes menor nos gays. Era a primeira indicação da origem biológica da homossexualidade. Mas, como várias pesquisas da área, a de LeVay tinha limitações: os gays do estudo haviam morrido em decorrência da aids e talvez a doença fosse responsável pela diferença. E, mesmo que essa diferença não estivesse relacionada com a aids, era impossível determinar se ela era causa ou conseqüência da experiência gay. Apesar das dúvidas, a descoberta abriu caminho para estudos que reforçam a suspeita de que a homossexualidade vem do útero. "Minhas pesquisas sugerem que algo acontece muito cedo na vida dessas pessoas, provavelmente na vida pré-natal", diz LeVay.

Mas o quê? Parte da resposta veio em 1993 com as pesquisas de Dean Hamer, do Instituto Nacional do Câncer, nos EUA. Hamer percebeu que dentro das famílias havia muito mais gays do lado materno. A descoberta atraiu sua atenção para o cromossomo X (mulheres têm dois cromossomos X, enquanto os homens têm um X e um Y). Em seguida, a descoberta: usando um escâner, Hamer viu que uma região do cromossomo X, a Xq28, era idêntica em muitos irmãos gays. O que ele descobriu não foi propriamente um único gene gay, mas uma tira de DNA transmitida por inteiro. A notícia provocou rebuliço, e não era para menos. Mesmo contestada por outros estudos, a conexão entre genes e orientação sexual sugere que as pessoas não escolhem ser homossexuais, mas nascem assim. A comunidade gay começou a ver na ciência a resposta contra a idéia de que seu comportamento era "antinatural".

Resposta genética?
Patrick e Thomas são gêmeos, têm 7 anos, olhos azuis e cabelo ondulado. Cresceram na mesma casa, criados pelos mesmos pais. À primeira vista, é impossível distingui-los. Mas passe algum tempo com eles e você verá que Patrick é sociável, atento e pensativo, enquanto Thomas é espontâneo e adora brincar de luta. Quando tinham 2 anos, Patrick encontrou os sapatos da mãe e gostou de calçá-los. Aos 3, Thomas disse que o revólver de plástico era seu brinquedo favorito. Aos 5, Thomas se fantasiou de monstro no Halloween; Patrick quis se vestir de princesa. Ridicularizado pelas risadas do irmão, decidiu ser Batman. Patrick sempre brincou entre meninas, nunca meninos. Os pais deixaram que ele fosse ele mesmo em casa, mas mantiveram alguns limites em público com medo de que seu comportamento feminino o expusesse. Funcionou até o ano passado, quando o orientador da escola ligou dizendo que ele deixara os colegas incomodados: insistia que era uma menina.

A história de Patrick e Thomas foi revelada pelo jornal Boston Globe. Como os demais gêmeos univitelinos (gerados pelo mesmo óvulo), os garotos são clones genéticos. Se a homossexualidade fosse mesmo causada por um cromossomo, os dois deveriam ter a mesma orientação sexual. Segundo estudos recentes, como o do psiquiatra americano Richard Green, garotos como Patrick têm até 75% de possibilidade de ser homossexuais quando adultos. Thomas aparenta ser heterossexual.

O caso de gêmeos com orientação sexual diferente mostra que, sozinha, a genética não explica a homossexualidade. Mas isso não significa que a criação tem todas as respostas. Afinal, antes mesmo de falar, Patrick já exibia traços femininos. Há mais dicas nessa charada: os pesquisadores americanos Michael Bailey, da Universidade Northwestern, e Richard Pillard, da Universidade de Boston, analisaram gêmeos e viram que, entre bivitelinos, se um deles é gay, o outro tem 22% de possibilidade de também ser. Para os univitelinos, a probabilidade sobe para 52%.

São números bastante superiores à taxa de homossexualidade entre a população, que seria de 10% de acordo com o famoso e polêmico Relatório Kinsey, dos anos 40, e entre 2% e 5% segundo pesquisas mais recentes. Bailey e Pillard, portanto, praticamente provam a existência de um componente genético para a homossexualidade. Ao mesmo tempo, praticamente provam, também, que os genes não dão conta de tudo. "Os estudos com gêmeos feitos até agora nos permitem uma estimativa de que até 40% da orientação sexual venha dos genes", diz o pesquisador Alan Sanders, da Universidade Northwestern, EUA. Para aprofundar suas pesquisas, Sanders está recrutando voluntários, inclusive brasileiros, para o maior estudo genético sobre homossexualidade já realizado. "A meta é selecionar 1 000 pares de irmãos gays bivitelinos", afirma. "Em irmãos assim, espera-se uma variação genética de 50%. Vamos analisar todo o genoma para saber se a variação é maior."

O que mais está em jogo?

Se os genes não explicam tudo, que outros elementos explicariam? Um deles parece ser o desenvolvimento biológico do feto ainda no útero. E é dessa área que vêm saindo as pesquisas mais promissoras. Uma delas é a teoria dos hormônios pré-natais. A idéia é que os hormônios sexuais masculinos (andrógenos) se conectam às partes responsáveis pelos desejos sexuais no cérebro e influenciam seu crescimento, tornando o cérebro mais tipicamente masculino ou feminino. A conexão dependeria das proteínas receptoras de andrógenos (AR, na sigla em inglês). Imagine que cada célula do cérebro seja uma casa. As ARs funcionariam como o portão dessas casas, que controla a entrada de pessoas. Sabe-se que a quantidade e a localização desses portões são diferente nos homens e nas mulheres. Cientistas já constataram, por exemplo, que o hipotálamo masculino tem mais ARs que o feminino.

Essa teoria supõe que a homossexualidade nos homens é causada por "portões" que restringem a entrada de andrógenos nas regiões responsáveis pela sexualidade, formando um cérebro submasculinizado. Nas mulheres, esses portões facilitariam entradas maiores, construindo uma estrutura supermasculinizada. Tudo conseqüência do número de ARs de cada feto – o que talvez se deva à carga genética.

Os cientistas advertem que esse processo é complexo. Em todo caso, as pistas da ação dos hormônios pré-natais estão por todo lado. Por exemplo, na nossa mão. Homens geralmente têm o dedo indicador um pouco menor que o anular, enquanto nas mulheres o comprimento costuma ser igual. Richard Lippa, da Universidade Estadual da Califórnia, notou que essa diferença no tamanho dos dedos tende a ser maior nos gays que nos héteros. Em outra pesquisa, Dennis McFadden, da Universidade do Texas, observou que lésbicas são menos sensíveis que as outras mulheres a sons baixos.

Mas é preciso cautela: correlações entre interesse sexual e traços físicos estão longe de ser provadas. Também vale lembrar que os hormônios importantes não são os que circulam no nosso sangue quando adultos – cujos níveis são iguais em homossexuais e héteros – mas os que atuaram no período de gestação.

O novo desafio dos pesquisadores é entender quais as origens de um fenômeno recém-descoberto: a existência de irmãos mais velhos parece afetar a sexualidade dos mais novos. É o chamado "efeito big brother". O cientista canadense Ray Blanchard acompanhou 7 mil pessoas e viu que a maioria dos gays nasce depois de irmãos homens e heterossexuais. Blanchard e o colega Anthony Bogaert calcularam que cada irmão mais velho aumenta em 33% a possibilidade de o menor ser gay. Um garoto com 3 irmãos mais velhos tem o dobro de possibilidade de ser gay que outro sem irmão mais velho. Um garoto com 4 irmãos mais velhos tem o triplo. Ter irmãs mais velhas não altera a probabilidade de o menino ser gay.

Para alguns, a explicação está na convivência familiar: depois de dar à luz vários homens, a mãe trataria o caçula como a menina que ela não teve. Os irmãos mais velhos também tenderiam a "dominar" o mais novo, influindo em seus sentimentos sobre si e os demais. Outra hipótese vem da biologia. "Os fetos masculinos talvez acionem uma reação imunológica na mãe ao produzirem substâncias que ameaçam seu equilíbrio hormonal", diz o cientista Qazi Rahman, da Universidade de East London. Segundo ele, o corpo da mãe acionaria um alarme para produção de anticorpos contra proteínas ou hormônios do bebê. Cada novo feto masculino intensifica a resposta, e o acúmulo de anticorpos redirecionaria a diferenciação tipicamente masculina para uma mais feminina, gerando orientação homossexual nos filhos seguintes.

Como os outros pesquisadores, Rahman não nega que fatores ambientais possam entrar na equação. O problema é que ninguém sabe exatamente quais são eles. Não há provas, por exemplo, de que o abuso sexual na infância causa homossexualidade. O número de gays não é maior em lares chefiados por mulheres nem entre filhos criados por casais gays. Tampouco há mais casos de homossexualidade após períodos de guerra, quando os pais se ausentam de casa, o que enfraquece as hipóteses sobre dinâmicas familiares. Nem mesmo a teoria de Sigmund Freud encontra sustentação científica. O pai da psicanálise dizia que mães superprotetoras e pais ausentes poderiam levar o filho a ser gay. Mas ao invés de encontrar a causa, Freud possivelmente enxergou a conseqüência: a superproteção da mãe não seria a origem da homossexualidade, mas um ato de defesa para um filho que é rejeitado pelo pai por se comportar, desde cedo, de maneira feminina. Antes que você deixe de lado as explicações psicológicas, é bom ler o que vem a seguir.

Do exótico ao erótico

"Fatores biológicos (como genes e hormônios) são certamente responsáveis por mais de 50% da orientação sexual", diz Dean Hamer. Ou seja: até mesmo o pai do "gene gay" admite que há espaço para fatores psicológicos. É justamente por apostar na interação entre biologia e ambiente que a teoria "exótico se torna erótico" vem chamando a atenção dos estudiosos. Seu autor, o psicólogo Daryl Bem, da Universidade Cornell, no estado de Nova York, afirma que os indivíduos são atraídos por outros de quem se sentiram diferentes na infância. Daryl diz que fatores biológicos atuam na formação da sexualidade ao agir sobre o temperamento da criança, predispondo-a a realizar certas atividades mais do que outras.

Assim, um menino que gostar de luta, futebol e esportes competitivos tipicamente masculinos conviverá num grupo com o mesmo perfil. Outro garoto que preferir bonecas e socialização mais calma, tipicamente feminina, encontrará colegas que também preferem a Barbie. Para esse garoto que convive entre amiguinhas e brinca com bonecas, a figura exótica que despertará sua atenção sexual será um menino. No caso de meninas homossexuais, se inverteriam os papéis. "Isso ocorre porque nossa sociedade polariza as diferenças de gênero. Se não as polarizasse tanto, mais homens e mulheres escolheriam parceiros com base em outros atributos além do sexo biológico", diz Daryl.

Isso significa que, apesar de a ciência estar caminhando para a noção de que a homossexualidade é inata, a biologia não é completamente determinante. "Essa predisposição para a homossexualidade vai se manifestar ou não dependendo das experiências de vida da pessoa", diz a psiquiatra Carmita Abdo. Tudo indica que a homossexualidade é mesmo o resultado da interação de 3 fatores: biológicos, psicológicos e sociais, mesmo que esses dois últimos ainda precisem de mais evidências. Enquanto elas não aparecem, é melhor você ser menos taxativo nas suas conversas de mesa de bar.

Robert Spitzer é o psiquiatra que encorajou a Associação Psiquiátrica Americana a retirar a homossexualidade da lista de transtornos mentais. Graças a ele, não se pode dizer hoje que ser gay é doença. Por isso, Spitzer causou espanto ao afirmar, em 2001, que sessões de terapia podem mudar a orientação sexual de um gay. Ele chegou a essa conclusão ao entrevistar pessoas que diziam ter deixado a homossexualidade após o tratamento. "A medicina não trata apenas das doenças", diz. A Super conversou com Ben Newman, diretor de um site que oferece apoio não religioso a pessoas que querem mudar de orientação sexual. "Com um terapeuta que entendia o que eu passava e respeitava meus valores descobri que não tinha desejo por sexo, mas uma necessidade de amizade e identidade masculinas", diz Newman. Mas é preciso extrema cautela nesse assunto. Muitos psicólogos dizem que a pesquisa de Spitzer tem problemas metodológicos. "Terapias de conversão não funcionam e só causam mais sofrimento", diz a psicóloga Adriana Nunan, da PUC-RJ. O Conselho Regional de Psicologia desaconselha tratar a homossexualidade. "O que se trata é o desconforto de ter essa condição", diz a psiquiatra Carmita Abdo.

O desafio dos que apóiam uma base genética para a orientação sexual é explicar a permanência e adaptação dos genes gays ao longo da evolução. "Ser atraído pelo sexo oposto é útil porque leva o indivíduo a gerar filhos – por isso os genes da heterossexualidade dominam o planeta. Mas como os genes da homossexualidade também parecem existir, é provável que sirvam ou tenham servido a algum valor reprodutivo ao longo da evolução", diz o cientista inglês Qazi Rahman. Talvez os animais possam dar a resposta. O biólogo americano Bruce Bagemihl analisou 450 espécies e constatou que elas não fazem sexo só para produzir filhotes. Mais de 70 tipos de aves e 30 de mamíferos "casam-se" com indivíduos do mesmo sexo. Muitas vezes, para ter prazer. Para a bióloga Joan Roughgarden, a homossexualidade é um traço natural que mantém indivíduos unidos através do contato. Para ela, não há diferença entre jogadores de futebol que se tocam para funcionar melhor como equipe e duas pessoas que se acariciam intimamente. "Estamos muito preocupados com o contato genital, mas tudo não passa de intimidade física", diz.

Born Gay - Glenn Wilson e Qazi Rahman, Peter Owen, Londres, 2005

www.ingentaconnect.com/content/klu/aseb - Archives of Sexual Behaviour (Arquivos de comportamento sexual)

Quantas línguas são faladas no Brasil?


Texto Ivy Farias

Fora o português – o único idioma oficial – há aproximadamente 180 outras línguas no Brasil. E olha que esse número não considera as comunidades de imigrantes nem as pessoas que aprendem uma língua estrangeira. São só os idiomas indígenas, falados por cerca de 160 000 pessoas.

A situação não está nada bonita para essa gente: segundo o lingüista Aryon Rodrigues, da UnB, 87% das línguas indígenas estão ameaçadas de “morte” – encaixam-se nessa categoria as línguas com­­ 10 ­­000­ falantes ou menos. Se um idioma tem só um falante, ele já é considerado morto, pois essa pessoa não tem mais ninguém para conversar em sua língua.

Ao contrário das pessoas, línguas podem ressuscitar, desde que o conhecimento seja preservado (num dicionário, por exemplo) e passado adiante. Foi o que aconteceu com o hebraico, que sumiu na Idade Média – quando passou a ter somente uso litúrgico – para renascer como o idioma oficial de Israel. Se a língua morre sem registro, ela é considerada extinta. A lingüista Januacele da Costa, da UFPE, estima que esse tenha sido o destino de 1 200 idiomas brasileiros desde a chegada dos portugueses. Na tentativa de salvar as línguas indígenas, lingüistas e professores se esforçam para ensiná-las às novas gerações. Hoje, há 2 422 escolas que oferecem alfabetização bilíngüe para as crianças índias.


Tucuna (40 000 falantes)

É a língua indígena mais conservada do Brasil. Os tucunas, habitantes da região do alto Solimões, no Amazonas, aprendem sua língua nativa em escolas públicas – onde os professores são, em sua maioria, não-índios.


Macu (1 falante)

Não se sabe por onde anda o único falante, Sinfrônio Makú, de mais de 70 anos. A última notícia que se teve dele é que trabalhava como jardineiro em Boa Vista, Roraima.


Xipaia (1 falante)

Maria Xipáya, de Altamira, Pará, é a última falante. Ela é uma idosa que nem sabe a própria idade. A língua está sendo dicionarizada pela lingüista Carmen Lúcia Rodrigues, da UFPA.


Embiá (10 000 falantes)

O embiá é uma variante do guarani falada em 7 estados: Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, além de Argentina e Paraguai. Os falantes do embiá também se comunicam em português.


Xetá (1 falante)

Mais uma língua prestes a sumir do mapa: o índio Kwen, de aproximadamente 80 anos, é o único falante. Ele mora em Laranjeiras do Sul, Paraná.


Nheengatu (3 000 falantes)

Conhecida como a língua geral amazônica – era usada por índios de diferentes etnias, além de caboclos –, é derivada do tupinambá. O idioma foi adotado pelo povo baré, do Amazonas, após o sumiço da própria língua.


Puruborá (0 falante)

Todas as pessoas que sabiam falar o idioma puruborá já morreram. Os índios da tribo, em Roraima, falam o português, mas alguns ainda conhecem poucas palavras da língua de seu povo.
Fonte:http://super.abril.com.br/superarquivo/2007/conteudo_519768.shtml

Novembro 10, 2008

Países em extinção


Com o nível do mar cada vez mais alto, ilhas paradisíacas do Pacífico Sul estão desaparecendo. E os moradores estão se transformando nos primeiros refugiados do aquecimento globalTexto Giovana Vitola

As ilhas paradisíacas do Pacífico Sul estão sumindo. Em poucos anos, algumas delas devem ficar desertas: cansados das freqüentes inundações, os moradores estão indo embora. Entre as 12 nações-arquipélagos da região, duas estão em alerta máximo. Com a elevação do nível do mar, os países de Kiribati e Tuvalu podem ser engolidos pelo mar, saindo do mapa de vez até o fim deste século. Hoje, quem mora nessas ilhas conhece paisagens bem diferentes das fotos turísticas. No começo do ano, marés altas provocam inundações a toda hora. A água invade as casas e causa erosões. Com as raízes atacadas dia a dia pelas ondas, as palmeiras estão caindo. Quando a maré sobe, poças d’água surgem repentinamente, espalhando o lixo pelas ruas de areia. Em algumas regiões, já é possível atingir água cavando apenas 1 metro de profundidade. O governo dos dois países já preparou um programa de emergência para arranjar alojamento para seus 115 mil moradores, os primeiros refugiados do aquecimento global.

O fenômeno é uma das provas dramáticas do aquecimento da Terra. Com a temperatura do planeta 0,7 oC maior no último século, as calotas polares derretem e o nível do mar aumenta. No Alasca, as ruas feitas de gelo há séculos estão esburacando e derretendo. Na Antártida, placas de gelo do tamanho de cidades se descolam com freqüência cada vez maior. O efeito é ainda mais incômodo para quem vive em lugares como Tuvalu, o 4o menor país do mundo, onde o ponto culminante tem 5 metros de altura e a largura das ilhas não passa de 500 metros. “Com todos os fatores que temos vivenciado, Tuvalu irá lentamente erodir nos próximos 40 ou 50 anos”, afirma Tauala Katea, cientista do centro meteorológico de Tuvalu. A ironia é que pequenas nações como essa contribuem pouquíssimo com a poluição ou com o aquecimento do planeta.

Em Tuvalu e Kiribati, os moradores importam 80% do que comem. A economia de Tuvalu depende da remessa de dinheiro dos tuvaluanos que moram no exterior e da venda do domínio de internet “.tv”. Em 1998, o país recebeu de emissoras de televisão americanas US$ 50 milhões por poderem usar o “.tv” por 12 anos no endereço da internet. Até o século 19, Tuvalu foi colônia espanhola, com milhares de habitantes levados ao Peru e à Bolívia como escravos. Depois, os dois países se tornaram colônias britânicas – Tuvalu faz parte da monarquia britânica até hoje. Durante as batalhas do Pacífico na 2ª Guerra Mundial, Kiribati foi invadido pelo Japão. Depois, abrigou testes nuclea­res americanos. Aconteceram ali testes de bombas de hidrogênio que assustaram o mundo na década de 1950 por serem 5 mil vezes mais potentes que a bomba lançada em Hiroshima em 1945. Hoje, os dois países abrigam pescadores e artesãos. As mulheres andam na rua com suas blusas e saias largas e coloridas, e até as autoridades vestem-se à vontade, como o presidente de Kiribati, que concede entrevistas de camiseta simples e chinelo. As crianças passam o dia nos coqueiros e na praia. No entanto, todos percebem o que está acontecendo com o seu paraíso particular.

Perigo em casa

O pior acontece entre os meses de janeiro a março, quando marés altas são mais comuns. As ruas de Tuvalu ficam freqüentemente alagadas e algumas casas, cobertas por água. A fúria do mar, cada vez mais freqüente, chega muitas vezes a ultrapassar as barreiras de cimento que protegem estradas entre uma ilha e outra. Diques estão espalhados por toda parte, na esperança de conter a água. Se há aumento repentino da maré, plantações de bwabwai (raiz rica em amido, um dos principais cultivos de Kiribati) ficam alagadas de repente. Quando o nível do mar volta ao normal, deixa a terra salgada, secando as árvores e fazendo com que arbustos mais resistentes ocupem a terra.

A situação fica mais preocupante porque o começo do ano coincide com a época de ciclones tropicais na região. Como a maioria das ilhas é redonda e formada por corais, quando um ciclone aparece não há para onde correr nem o que salvar. Já foram registradas ondas de 3,48 metros de altura em Tuvalu.

Em Kiribati, a erosão costeira está em todos os lados. Uma série de tempestades em 2001 fez com que algumas ligações entre as ilhas desaparecessem. A ilha de Tepuka Savilivili, do arquipélago de Tuvalu, teve suas últimas palmeiras arrastadas e foi encoberta pelas ondas depois de um ciclone. Para conter o avanço da água, os moradores fazem proteções na beira-mar, que precisam ser freqüentemente refeitas. Mas as ilhas não estariam a salvo nem se paredes indestrutíveis a cercassem. Como o solo é poroso, a alta das marés força a água subterrânea para cima. É por isso que acontecem inundações repentinas e poças d’água surgem mesmo em dias claros. Esse movimento é contido pelos recifes de corais que circundam todas as ilhas do Pacífico Sul. O problema é que, também por causa do aquecimento global, os corais do Sri Lanka até a Nova Zelândia estão morrendo.

Com a água nos pés, os moradores se batem até para lidar com os mortos. Em 2004, a kiribatiana Wanita Limpus teve que exumar o corpo do avô, enterrado na ilha de Betio, uma das maiores do país. “Em vez de encontrarmos o corpo do meu avô, encontramos água, a só 1 metro de profundidade”, diz ela. Hoje morando na Austrália, Wanita se impressiona com a força do mar sempre que volta ao país de origem. “A água cada vez mais invade as casas.” Os cientistas locais confirmam a impressão dos moradores. “O nível do mar está subindo continuamente nos últimos anos”, afirma Nakibae Teuatabo, da Unidade de Mudança Climática do Ministério do Meio Ambiente do país. Segundo ele, em algumas ilhas o índice de erosão chega 2,5 metros por ano. “Quanto à temperatura das ilhas, estamos certos de que ela também aumentou.”

Ciência urgente

Segundo dados dos últimos 50 anos, coletados pela Universidade do Havaí, o nível do mar na região vem se elevando 1,07 milímetro por ano, em média. Outras medições falam em 0,8 milímetro anualmente. Em 1992, o Centro Nacional Australiano de Meteorologia iniciou um megaprojeto para coletar dados marítimos indiscutíveis. O sistema tem estações de medição em 12 ilhas do Pacífico Sul, cada uma com sensores acústicos, medidores de temperatura, pressão, e métodos para descontar do cálculo marés e movimentos das placas continentais da Terra. “Mas ainda é cedo demais para obter estatísticas em longo prazo da alteração do nível do mar na região”, afirma Nick Harvey, professor de Estudos Ambientais da Universidade de Adelaide, Austrália.

Também é provável que a população das ilhas tenha sua parcela de culpa pelo que acontece em casa. Para o oceanógrafo John Hunter, do centro de pequisas australiano Antarctic Climate and Ecosystems, o aumento de eventos como alagamentos insulares pode estar vinculado ao aquecimento global, mas talvez não. “Nós simplesmente não podemos confirmar nada no momento. Os problemas de Tuvalu com o nível do mar e a salinidade são complexos e podem ter múltiplas causas”, diz ele. Outras influên­cias poderiam ser ondas mais altas devido a tempestades, redução da chuva, aumento da erosão costeira por causa de construções em locais inadequados, o uso demasiado de água doce e a falta de tratamento de esgoto. “Todos esses fatores estão relacionados.”

Hora de dar adeus

Com o mar subindo ou não, por causa do aquecimento global ou não, o fato é que a perspectiva para o futuro dos países-ilhas não é animadora. O Pacífico Sul está numa das mais fortes áreas de calor do planeta, o que faz o nível do mar lá ser 9 milímetros maior que a média dos oceanos. Até o fim deste século, a temperatura média do mundo pode aumentar 5,8 oC e o nível do mar subir até 48 centímetros. Com essa elevação, ilhas que estão apenas cerca de meio metro acima do mar sofrerão com permanentes inundações. A erosão nas áreas costeiras também deve aumentar, destruindo algumas ilhas por completo. A melhor opção é adaptar-se às mudanças climáticas da Terra, ou seja: ir embora de lá. “Mais cedo ou mais tarde, as ilhas dessa região deverão ser abandonadas”, afirma John Hunter.

Já estão sendo. Sem esperança de que a situação melhore, o governo dos dois países preparou uma retirada gradual. Há uma comunidade kiribatiana em Brisbane, na Austrália, com os cerca de 60 primeiros refugiados do aquecimento global. Dois em cada 10 tuvaluanos estão vivendo fora do país, a maioria deles em Auckland, Nova Zelândia. A comunidade de Tuvalu é a que cresce mais rápido por lá. Os dois países seguem procurando abrigo. O problema é que nem sequer os vizinhos ajudam. Há 10 anos, o governo australiano proibiu que refugiados de Tuvalu e Kiribati mudassem para a Austrália. Em contrapartida, na Nova Zelândia há uma cota de 75 refugiados para ingressar por ano – nesse ritmo, levaria 1 200 anos para toda a população evacuar o país.

Como a maioria dos moradores tem uma vida típica de nativos de praia, quando decidem ir embora das ilhas, são obrigados a mudar também de estilo de vida. “Aqui você tem que ter um salário. Tudo é um desafio. Tudo custa dinheiro”, afirma Telaki Taniela, um tuvaluano de 32 anos que mora em Auckland. Telaki passou a infância brincando na praia de Funafuti, capital do país, onde as únicas coisas que precisava saber era como pescar e como subir nos coqueiros das ilhas. Em 1997, ele resolveu fugir do aquecimento global com toda a família. Quando chegou ao território neozelandês, decidiu abrir um mercadinho para sustentar os filhos e a mulher. “Antes bastava pescar para a gente sobreviver”, afirma. “Mas, como não quero acordar um dia dentro d’água, tive que vir para cá.”

Por isso, um sentimento de melancolia toma a comunidade tuvaluana na Nova Zelândia. Fala Haulangi, uma líder dos exilados de Tuvalu em Auckland, resolveu montar um programa de rádio semanal sobre a cultura tuvaluana. Sua principal preocupação é os moradores perderem a identidade com o país. “O que eu vou ser se meu país desaparecer? Sou de Tuvalu, um país que não existe mais”, diz ela. Leilani Gosschalk, uma tuvaluana que também vive na Austrália, passou a infância na ilha de Tepuka Savilivili, que hoje não existe mais. “Acho inevitável que nossa cultura e nossa terra acabem”, diz.


• High Tide - Mark Lynas, Picador, 2003

• www.bom.gov.au/oceanography/ - Bureau de Meteorologia da Austrália

somos (quase) todos assassinos em potencial. Ou você nunca quis matar alguém?


Texto Heitor Camargo

Você já teve vontade de matar alguém? Imaginou em detalhes como ia fazer isso? Chegou a pesar os prós e contras e, obviamente, percebeu que não fazia sentido (afinal, além de contrariar seus princípios morais, o risco de ser pego e o custo seriam muito grandes)? Bem, se você respondeu sim a essas perguntas, saiba que não está sozinho. Segundo o maior estudo realizado sobre fantasias homicidas, 91% dos homens e 84% das mulheres admitiram já ter pensado (em minúcias) como se livrar de outra pessoa. Sim, você leu bem. A esmagadora maioria dos 5 mil entrevistados (entre os quais 375 assassinos) confessaram esse fato, o que levou o coordenador da pesquisa, David Buss, chefe do Departamento de Psicologia Evolutiva da Universidade do Texas, a concluir que a capacidade de tirar a vida é uma característica comum a todos os seres humanos, resultado da seleção natural. Além das conversas ao vivo, a equipe ainda fez uma inédita análise de 429729 relatórios do FBI, a polícia federal americana, e transformou os resultados no livro The Murderer Next Door ("O Assassino Mora ao Lado"), que foi lançado este ano nos EUA.

As conclusões são estarrecedoras e surpreendentes. Afinal, ninguém (exceto alguns psicopatas) admite que o homicídio seja uma prática socialmente aceita. Ao contrário, é um crime abominável. Para Buss, porém, a predisposição para cometê-lo "em determinadas circunstâncias" está nos nossos genes. "A capacidade de matar ajudou nossos ancestrais a sobreviver e a se reproduzir melhor. Como seus descendentes, carregamos essas adaptações e motivações que levaram ao sucesso deles", afirmou o cientista à super. Segundo ele, o assassinato tem sido uma solução eficaz para lidar com diversos problemas na história evolutiva da humanidade. "Quais são essas vantagens? Em primeiro lugar, o indivíduo que mata continua vivo para transmitir seus genes às gerações seguintes. O que é morto, não. Além disso, os descendentes da vítima – se existirem – ficam mais desprotegidos e, se também não morrerem precocemente, saem de um ponto de partida desvantajoso na corrida pela reprodução e sobrevivência."

Passado e presente

Segundo a tese de Buss, historicamente o assassinato representou uma vantagem evolutiva. A violência ajudou os homens a conquistar status e recursos (comida, terra, ferramentas etc.) fundamentais para atrair e manter parceiras. Ou seja, na maioria dos casos o motivo que levava alguém a matar estava ligado direta ou indiretamente à reprodução. "Homicídios relacionados à reputação têm tudo a ver com questões genéticas, pois mulheres preferem homens de status", diz o pesquisador, para quem isso também explicaria por que homens matam muito mais do que mulheres – numa proporção que chega a 9 para 1 em algumas sociedades.

Hoje, muito dessa competição por status se dá no mercado de trabalho, no mundo dos negócios, nos esportes etc. E é óbvio que o assassinato raramente conduz alguém ao topo na civilização moderna, como o próprio Buss reconhece. "Mas a humanidade não evoluiu numa sociedade com código penal. Nossa psicologia foi forjada na fornalha de um ambiente evolutivo no qual a agressão às vezes era muito compensatória." Ou seja, atualmente algumas pessoas matam "por inércia", mesmo que isso não tenha mais compensações, inclusive do ponto de vista da seleção natural. O cientista acredita, porém, que "em situações-limite" – circunstâncias análogas às que no passado levaram o homem a se beneficiar da violência –, determinados circuitos cerebrais (os responsáveis pelo tal instinto assassino) podem ser ativados.

Isso quer dizer, então, que matar é aceitável ou desculpável, uma vez que é uma ação prevista em nossos genes? Como aceitar que a ciência trate com naturalidade uma atitude que nega o bem mais fundamental da nossa existência, a vida? Críticos da psicologia evolutiva costumam afirmar que ela dá uma importância exagerada à busca dos homens por parceiras para reprodução. E que isso reforça estereótipos sexuais, além de superestimar características inatas. Se você quiser acreditar nessa lógica, argumentam esses estudiosos, quase todos os comportamentos têm a mesma origem: o desejo sexual. Por isso, há quem coloque em dúvida inclusive as bases científicas da teoria levantada por Buss.

"Há muita especulação envolvida quando psicólogos evolutivos formulam hipóteses sobre os supostos anos formativos do cérebro humano", escreveu recentemente Amanda Schaffer, colunista de ciência da revista online Slate. Também o filósofo da ciência David Buller, da Universidade do Norte de Illinois, questiona a maneira pela qual Buss e seus colegas apresentam a cadeia de transmissão genética de padrões de comportamento – argumentando que nosso cérebro não é uma máquina de repetição de padrões, mas um organismo muito mais flexível e adaptável às condições presentes e às variações do ambiente e da comunidade.

Sobre homens e macacos

Algumas das idéias expostas por David Buss em seu livro não são novas e têm relação com teses bem mais antigas, que tentam achar explicações para a violência no mundo animal. Durante muito tempo acreditou-se que o homem era o único ser vivo capaz de matar deliberadamente um semelhante. O caráter pacífico de nossos parentes mais próximos, como os chimpanzés, era usado como argumento para justificar a tese de que o assassinato era um desvio de comportamento humano. Essa crença, porém, começou a ser questionada no início da década de 1970, quando a equipe da britânica Jane Goodall testemunhou por duas vezes chimpanzés invadindo a área de um grupo vizinho, na Tanzânia, para perseguir e matar com "requintes de crueldade", como descreveriam os repórteres policiais.

Também nos anos 70, Dian Fossey encontrou um filhote de gorila morto por um adulto macho em Uganda. "O exame do cadáver revelou 10 ferimentos de gravidade variável produzidos por mordidas. Uma delas tinha fraturado o fêmur do bebê e outra tinha perfurado seus intestinos", contou Fossey no livro que inspirou o filme Nas Montanhas dos Gorilas. Mais tarde, ela descobriu que, ao invés de ser um fato isolado, o infanticídio era regra na espécie. A agressividade entre primatas foi estudada pelo britânico Richard Wrangham, autor de O Macho Demoníaco – As Origens da Agressividade Humana, em que afirma que, do ponto de vista evolutivo, a violência extrema – e em especial o assassinato – foi uma estratégia que favoreceu tanto os chimpanzés quanto os humanos na cadeia evolutiva.

Nos dois casos descritos pela equipe de Goodall, os chimpanzés eliminaram os machos vizinhos, acasalaram com as fêmeas e aumentaram seu território e o acesso a importantes fontes de alimento – mas, ironicamente, acabaram assassinados mais tarde por outros indivíduos ainda mais fortes. No caso dos gorilas, depois do infanticídio as mães de filhotes mortos terminaram unindo-se ao agressor. Wrangham prefere ser mais cauteloso ao traçar paralelos com o comportamento humano. Para ele, nos dias atuais, os assassinatos que podem estar diretamente ligados à nossa herança evolutiva são os cometidos por grupos, como gangues ou exércitos (leia mais no quadro da página ao lado). Nesse ponto, o pesquisador admite que há de fato muitas semelhanças entre homens e chimpanzés. "Tanto uns quanto outros sentem que há uma justificativa para matar membros de comunidades vizinhas ou rivais", disse por telefone à super, de seu escritório na Universidade Harvard, nos EUA.

Pobreza e desigualdades

Mas onde se encaixam as questões sociais ligadas a aumento ou redução das taxas de homicídios, como pobreza e desigualdade, à cultura da violência em algumas sociedades, ao fácil acesso a armas de fogo e até à impunidade? É inegável a relação entres esses fatores e o número de assassinatos. Um estudo recente – embora ainda não tenha sido muito detalhado – mostra que em 2004, pela primeira vez em 13 anos, caiu o número de mortes por armas de fogo no Brasil. A queda coincide com a campanha de desarmamento liderada pelo governo federal, que retirou mais de 400 mil armas de circulação (leia mais no quadro da página 81).

Basta olhar também para o mapa da violência nas grandes cidades para perceber a concentração de crimes com morte nas áreas de maior desigualdade social. David Buss não nega a ligação entre indicadores sociais ruins e o aumento do número de homicídios, mas garante que ela corrobora sua tese: pobreza e desigualdade aumentariam o número de homens dispostos a atos extremos para conseguir recursos e status – e, assim, atrair mulheres.

Mas, se todos estamos programados para matar, por que só uma ínfima minoria toma a decisão de fazê-lo? Segundo Buss, o assassinato é apenas uma de várias estratégias num cardápio de soluções possíveis para problemas de adaptação. "Felizmente, na maioria das vezes as pessoas usam meios não letais para resolvê-los." Ele destaca que, antes de tomar qualquer decisão, medimos as conseqüências, avaliamos o custo/benefício e pesamos as alternativas. E, como a seleção natural nos legou (além do instinto assassino) muitas ferramentas boas – altruísmo, amizade, auto-sacrifício, cooperação e tantas outras –, optamos na maioria dos casos por respostas positivas.

Crime e castigo

Além disso, as penas severas impostas pelas sociedades modernas funcionam como uma importante forma de inibir a violência extrema. Há crime, mas também há castigo. Nas entrevistas conduzidas pela equipe de Buss, a justificativa mais freqüente para explicar por que as pessoas pensavam em matar, mas não chegavam às últimas conseqüências, foi justamente o medo de ser pego e de passar o resto da vida trancado numa cadeia. "Sem leis duras e penas de prisão longas, haveria muito mais assassinatos do que há hoje", diz o pesquisador. Princípios morais e religiosos também foram bastante citados, embora historicamente eles tenham se mostrado pouco eficientes para evitar conflitos regionais e guerras (na verdade, muitas delas nasceram e floresceram justamente com base em ideais defendidos por esta ou aquela religião).

Se você é dos que acreditam que depois de tantos séculos de vida em comunidade, com fantásticos avanços nas áreas da cultura e da civilização, o homem deveria ser capaz de controlar inclusive os traços deturpados de seu comportamento ancestral, há esperança. Até os psicólogos evolutivos admitem que, embora a informação genética esteja lá, muitas das circunstâncias capazes de desencadear o instinto assassino são facilmente controladas socialmente. "Matar não eleva o status de ninguém", exemplifica Buss. Os bons valores importam, sim. E muito.

87% dos homicídios nos EUA são cometidos por homens. E 75% das vítimas também são homens. Os números são similares na maioria dos países, Brasil inclusive.

Fonte: The Murderer Next Door, de David Buss

17,8 é o número de mortes por assassinato em cada 100 mil americanos entre 20 e 24 anos de idade. Na faixa dos 34 aos 39 anos,o número cai para 12 casos.

Fonte: The Murderer Next Door, de David Buss

106,3 habitantes, em cada 100 mil do bairro de Parelheiros, em São Paulo, foram vítimas de homicídio em 2000. No mesmo ano, a estatística no bairro nobre do Jardim Paulista foi de 3,6 casos em cada 100 mil habitantes.

Fonte: Homicídios no município de São Paulo: Perfil e subsídios para um sistema de vigilância epidemiológica, GAWRYSZEWSKI V.P. (2002).

• Venezuela - 22

• Brasil - 19,5

• Porto Rico - 17,4

• Argentina - 4,3

• EUA - 4

• Uruguai - 3,1

• Reino Unido - 0,07

• Japão - 0,02

• Egito - 0,02

A sensação de que se mata muito no Brasil não é uma invenção da imprensa. Mas pesquisas recentes mostram que, proporcionalmente, é baixo o número de assassinatos que ocorrem durante assaltos ou seqüestros (veja o quadro). A maior parte desses crimes é cometida por homens jovens contra homens jovens e envolve questões pessoais e algum tipo de defesa da reputação, honra ou status local. Na cidade de São Paulo, em 1995, apenas 6% dos homicídios de autoria conhecida e 21% dos homicídios de autoria desconhecida foram qualificados como latrocínio (roubo seguido de morte), segundo levantamento realizado pelo sociólogo Renato Sérgio de Lima para sua tese de mestrado na USP. "Os chamados conflitos interpessoais, categoria que inclui brigas em casa e nos bares, vingança, discussões privadas e toda sorte de disputas que não tinham nenhum tipo de relação com o crime organizado, responderam por 56% dos casos", diz Lima. Em outras palavras, mais da metade dos assassinatos envolve pessoas que não só se conhecem como competem de alguma maneira. Segundo o jornalista Bruno Paes Manso, que fez seu mestrado em ciências sociais na USP sobre o perfil dos homicidas paulistanos, "vingança e defesa da honra" são os dois principais motivos de assassinatos por "conflitos interpessoais" na periferia da capital. "Nesse ambiente tenso, vender-se como alguém que não leva desaforo para casa e não admite ser desrespeitado é fundamental. Muitas vezes o homicídio é uma forma de recuperar a honra questionada em público", avalia Manso, cuja tese foi lançada em livro com o nome de O Homem X.



Os motivos mais comuns para os assassinatos na Grande São Paulo. Dados de 1998 a 2000 do município de Diadema e das regiões sul e leste da capital.

• Problemas pessoais - 44

• Negócios ilícitos - 24

• Roubos e assaltos - 14

• Questões familiares - 8

• Outros - 10

Se a capacidade de assassinar está nos genes do homem e foi uma vantagem evolutiva, é isso que explica os homicídios coletivos, os massacres e as guerras? Segundo alguns psicólogos evolutivos, sim. Os guerreiros teriam tido mais sucesso em transmitir seus genes – e, com eles, a violência – às gerações seguintes. Além de eliminar rivais, os grupos vencedores se apoderaram de recursos dos vencidos.Guerras e invasões, por essa teoria, permitiram aos homens conquistar mais parceiras. A história está cheia de exemplos em que os machos do lado perdedor foram massacrados e as mulheres, poupadas – só para serem estupradas ou incorporadas ao grupo logo a seguir. O exemplo mais emblemático é o do conquistador mongol Gêngis Khan (1162-1227), notório assassino, a quem se atribui a frase "O maior prazer é eliminar o inimigo e deitar nas barrigas brancas de suas mulheres e filhas". Pesquisa recente conduzida pelo geneticista Chris Tyler-Smith, da Universidade de Oxford, mostrou que, em 16 populações na área do antigo Império Mongol, 8% dos homens – 16 milhões de pessoas – possuem um cromossomo típico da família de Khan. A nefasta história do sexo como espólio de guerra repete-se até hoje, em conflitos como o da Bósnia e de Ruanda. A natureza homicida estaria ligada ao imperialismo de todas as potências – da Roma antiga ao Império Britânico. Tal como um indivíduo, um império (liderado por homens) almeja sempre mais poder. Portanto, estamos condenados a viver sob conflitos? Talvez não. Segundo o antropólogo Richard Wrangham, da Universidade Harvard, há algo essencial para o desenvolvimento da violência coletiva: o desequilíbrio de forças. Bandos de homens só atacam quando têm a percepção – nem sempre verdadeira – de que podem sair ilesos. "Se mantivermos um relativo equilíbrio de poder, podemos esperar paz", acredita.

Fonte:http://super.abril.com.br/superarquivo/2006/conteudo_421737.shtml

Cristovam: Brasil só será um país verdadeiramente republicano com escola igual para ricos e pobres.


O Brasil não poderá ser considerado um país republicano enquanto não garantir escola pública de qualidade, para ser freqüentada por ricos e pobres. O ponto de vista foi defendido pelo senador Cristovam Buarque (PDT-DF) nesta sexta-feira (7), no encerramento do 12º Simpósio Nacional de Auditoria de Obras Públicas (Sinaop), no auditório Petrônio Portela, no Senado. Na opinião do senador, a socialização do conhecimento, por meio da escola pública, será o único caminho para a superação dos marcantes processos de exclusão social observados no país.

- É como se, no futebol, tivéssemos bolas quadradas para uns e bolas redondas para outros - disse Cristovam, criticando a naturalidade com que a sociedade aceita que ricos e pobres tenham escolas com padrões diferentes, aprovando quem será excluído ou não.

O senador falou sobre o tema Educação, Corrupção e Obras Públicas. Segundo ele, o problema da corrupção pode ser visto sob duas perspectivas: a do comportamento de pessoas que se desviam da norma para se apropriar diretamente dos bens públicos; e outra, camuflada, relacionada à definição das prioridades em relação aos gastos públicos. Cristovam afirma que esse segundo tipo é mais grave e explica por que a educação e outros assuntos de interesse coletivos são negligenciados.

- O Brasil vem avançando no combate à corrupção do comportamento indevido graças ao trabalho de vocês [em referência à platéia] e da imprensa. Na ética das prioridades, no entanto, não temos avançado. Na hora de definir para onde devem ir os recursos, utilizamos mais os critérios de grupos de pessoas, de grupos eleitorais. Não estamos conseguindo aglutinar os grupos numa Nação - afirmou.

Para Cristovam, os governos também trabalham para o "curto prazo", o que dificulta ainda mais a definição de soluções para os problemas coletivos. Segundo ele, não pode existir Nação onde os governos são "prisioneiros do calendário eleitoral". Em sua opinião, o país perdeu uma oportunidade para definir uma visão de futuro na Constituinte de 1988. O problema, como acredita, foi aceitar que os constituintes fossem eleitos também para cumprir função parlamentar.

- Os constituintes não foram pais da Pátria, mas parlamentares eleitos, e cada um foi submetendo-se às pressões corporativas que aqui chegavam - explicou.

Cristovam observou que hoje a Constituição está sendo utilizada como barreira contra a aplicação da lei que estipula um piso salarial de R$ 950 mensais para os professores - cinco governadores entraram com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a obrigatoriedade do piso. No entanto, lembrou, categorias mais organizadas, com apoio no princípio constitucional de que toda classe de servidor deve dispor de um piso salarial definido em lei, hoje desfrutam de salários em valor até acima de R$ 10 mil mensais.
Gorette Brandão / Agência Senado
Fonte: www.cristovam.org.br

Técnicos dominam o país dos 'doutores'



Até algum tempo atrás, os jovens de classe média sonhavam com um diploma universitário, que seria o passaporte para o mercado de trabalho e uma vida confortável. O ensino técnico ou profissionalizante era visto, então, como algo dirigido apenas aos jovens pobres, sem perspectiva de cursar uma faculdade. Mas isto está mudando. Hoje em dia, o mercado de trabalho exige que o profissional recém-formado tenha o máximo possível de experiência e cada ano a mais de prática conta valiosos pontos numa seleção para um bom emprego ou até mesmo estágio.

De olho nessa carência de profissionais, interessados têm procurado cada vez mais as instituições de ensino técnico, que vem registrando, por ano, aumento de 20% na procura por cursos médio-técnicos e 100% para cursos técnicos.

Os jovens de classe média descobriram que começar a estudar ciência e tecnologia, e aprender uma profissão desde o ensino médio e praticá-la durante o curso universitário pode ser o diferencial para entrar no mercado pela porta da frente.

Pesquisas de mercado apontam que nos últimos meses, foram criadas mais de 3 mil vagas de emprego, sendo que dessas, 58,45% foram ocupadas por técnicos, analistas e assistentes. Mas apesar dos números animadores, muitas regiões do país sofrem com a falta de mão de obra qualificada para ocupar essas vagas - inclusive a originada da profissionalização técnica, hoje a mais requisitada por empregadores.

O aumento das oportunidades criadas no ano passado reflete o bom momento financeiro protagonizado pelas organizações brasileiras. De acordo com recente estudo do Serasa, as companhias nacionais registraram, no ano passado, a maior rentabilidade da década. Em fevereiro último, o setor que mais criou vagas foi o industrial, respondendo por 26,51% dos 3.018 postos de trabalho.

Estágio garantido
Para o diretor-geral do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Sockow da Fonseca (Cefet-RJ), Miguel Badenes Filho, a empregabilidade no setor nunca esteve tão alta. "Se as instituições de ensino não se prepararem para esta realidade, não conseguiremos atender à demanda com força de trabalho local e, em breve, precisaremos importar mão-de-obra quialificada".

O salário médio de um profissional com formação técnica fica entre R$ 1 mil e R$ 1,3 mil. Ao entrar como estagiário, a média salarial varia de R$ 600 a R$ 650. E vaga é o que não falta. "Já houve situações de empresas que vieram aqui na escola para fazer uma palestra e, no fim, contrataram a turma inteira para estágio", disse Badenes.

Na Divisão de Integração Empresarial (Diemp) do Cefet-RJ, por exemplo, a negativa tem sido muito comum. "Às vezes, as empresas conveniadas entram em contato pedindo mão-de-obra mas nós não conseguimos atender porque nossos alunos já estão encaminhados para estágio e empregos", disse a coordenadora do setor, Maria Alice Caggiano de Lima.


O Dia
www.noticiasterra.com.br

Novembro 09, 2008

Em caso de aids, injete HIV


Cientistas usam o vírus da aids para combater o vírus da aids (e vice-versa)
Rodrigo Cavalcante


Para vencer o inimigo, aja como ele. É com essa idéia que pesquisadores da Universidade da Pensilvânia (EUA) estão usando uma versão geneticamente modificada de HIV que atua como um míssil teleguiado antiaids programado para destruir seus pares. Por segurança, fizeram o teste em 5 portadores de HIV que não respondiam ao tratamento com os coquetéis antiaids de hoje. O HIV injetado nos pacientes recebeu genes que inibem a replicação do vírus. Durante os 9 meses de testes, só um dos infectados teve a carga viral reduzida significativamente. Nos outros, ou a quantidade de vírus diminuiu pouco ou continuou igual estava antes. Mesmo assim os pesquisadores comemoram. “O principal objetivo era comprovar que o tratamento é seguro. E isso foi demonstrado”, diz o patologista Carl D. June, um dos líderes da pesquisa. Agora os testes vão entrar em uma nova fase. O coquetel ainda é a forma mais eficiente de controlar a proliferação do vírus. Em compensação, as toxinas dele são tão prejudiciais que muitos infectados têm de suspender o tratamento para não debilitarem ainda mais seu sistemas imunológico. Por isso, os pesquisadores estão recrutando para o próximo teste um grupo de pacientes cuja carga viral esteja relativamente controlada. Se o tratamento for bem-sucedido, a expectativa é que ele sirva como uma alternativa mais saudável e eficiente para o controle do vírus. “Ainda temos um bocado de trabalho a fazer”, diz o pesquisador Bruce Levine, também da Universidade da Pensilvânia. E eles têm mesmo: os cientistas devem continuar acompanhando esses pacientes pelos próximos 15 anos.

http://super.abril.com.br/superarquivo/2007/conteudo_485255.shtml

Novembro 08, 2008

Se beber não digite!



Quem quer que tenha passado alguns minutos lendo blogs de tecnologia ou conversando em bares nas duas últimas semanas provavelmente ouviu falar do Mail Goggles, um novo recurso do serviço Gmail, do Google, que tem por objetivo pôr fim a um flagelo que pouca gente conhecia: o envio de e-mails por pessoas embriagadas no meio da madrugada.
O programa experimental requer que qualquer usuário que habilite a função resolva cinco problemas simples de matemática em 60 segundos, nos horários entre as 22h e as 4h, em finais de semana. O período aparentemente corresponde ao intervalo entre o coquetel número um e o coquetel número quatro, aquele momento em que enviar uma mensagem de e-mail a um "ex" ou a um colega de trabalho talvez equivalha a fazer bungee jump sem a corda.

O Mail Goggles não é o primeiro caso de uma tecnologia projetada para impedir que pessoas coloquem a si mesmas ou a outros em risco ao usarem de forma irresponsável a maquinaria comum da vida cotidiana depois de beber algumas doses. Há anos os juízes ordenam que as pessoas condenadas por dirigir embriagadas instalem bafômetros computadorizados conectados à ignição de seus carros, a fim de impedi-las de acionar os veículos quando estiverem bêbadas.

Mas como primeiro posto de verificação da sobriedade naquilo que um dia foi conhecido como "superhighway da informação", o programa Mail Goggles também suscita uma questão mais ampla: em uma era na qual parte tão grande de nossa comunicação rotineira é realizada por meio de mensagens digitadas, será que estamos tão presos aos nosso teclados que realmente precisamos do equivalente digital às trancas de gatilho que equipam algumas armas de fogo?

Em entrevistas com pessoas que confessam beber e digitar ao mesmo tempo -ocasionalmente com conseqüências lamentáveis -, a resposta parece ser positiva.

Jim David, comediante que vive em Manhattan, diz que gostaria de dispor do Mail Goggles certa noite em que estava "chumbado" e enviou uma mensagem de e-mail a uma organização religiosa declarando algo como "vocês são diretamente responsáveis pelos ataques a gays em toda parte", ele relembra em mensagem de e-mail.

"Recebi uma resposta do departamento jurídico da organização, que desejava saber exatamente como eu sabia que eles eram os responsáveis, e alegava que minhas acusações eram graves e em breve poderia receber um telefonema do FBI", conta David. "Eu apaguei a mensagem correndo e tomei um remédio contra a ressaca".

A verdade é que o Mail Goggles mesmo nasceu de uma situação embaraçosa. Um engenheiro do Gmail chamado Jon Perlow criou o programa depois de enviar algumas missivas noturnas lastimáveis, entre as quais um apelo a uma ex-namorada para que ela voltasse, ele escreveu no blog do Gmail. "Infelizmente, todos nós passamos por isso", diz Jeremy Bailenson, diretor do Laboratório de Interação Virtual Humana da Universidade de Stanford. Os telefonemas feitos sob a influência do álcool talvez sejam tão antigos quanto o telefone, ele diz, mas agora o abismo fica muito mais próximo, em uma era na qual tanta gente carrega organizadores pessoais que abrigam centenas de informações de contato - entre as quais clientes, adversários no trabalho e chefes - e os têm consigo a toda hora, mesmo em bares e festas.

E as mensagens de e-mail podem ser especialmente poderosas, porque constituem o que os cientistas sociais definem como comunicação "assíncrona", o que significa que o diálogo não acontece em tempo real, ao contrário de conversas pessoais ou telefônicas. As pessoas podem responder a mensagens de trabalho recebidas por e-mail horas depois que deixam o escritório - uma idéia arriscada caso elas decidam se conectar depois de um happy hour alcoólico.

O atraso na resposta significa que as pessoas têm tempo suficiente para formular uma resposta com o máximo impacto, ele disse. "Se você passa oito horas no bar pensando em tudo de pior que possa dizer a alguém, a situação pode se tornar singularmente destrutiva", diz Bailenson.

A comunicação via texto e o álcool são uma mistura poderosa em parte porque as pessoas já tendem a ser mais francas online do que são no contato pessoal, mesmo antes que percam suas inibições por força da bebida, diz Lee Rainie, diretor do Pew Internet & American Life Project.

"As pesquisas sugerem que, para algumas pessoas, o uso de computadores ou outros aparelhos gera uma distância emocional quanto à pessoa a que estão se dirigindo", afirmou Rainie em mensagem de e-mail. A distância, em outras palavras, pode gerar uma sensação de segurança - os flertes se tornam mais ostensivos, e os insultos mais insultuosos.

Foi essa segunda hipótese que se confirmou no caso de um produtor musical de Manhattan, que recorda um incidente envolvendo uma mensagem de texto enviada durante uma viagem (alcoólica) recente à faculdade em que o produtor, de 23 anos, se formou. Ele prefere que seu nome não seja divulgado, mas conta que se embriagou e saiu com uma aluna, e a acompanhou a seu apartamento. Mas, sentado na cozinha da moça às quatro da manhã, ele começou a se arrepender. Por isso, enviou uma mensagem de texto ao iPhone de um amigo: "Eca, Saratoga, o que foi que me deu? Eu certamt. posso fazer melhor que isso. Você pode vir com meu carro e me tirar daqui?"

Segundos mais tarde, o celular dele acusou o recebimento de uma mensagem: ele havia enviado a mensagem por engano para a moça daquela noite, e não para o amigo.

Meses mais tarde, depois de mais alguns desastres românticos envolvendo a companheira daquela noite, "nós tivemos uma longa conversa e pedi desculpas", ele conta. "Agora escrevo canções sobre levar uma vida regrada".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
Fonte:www.tecnologiaterra.com.br

Sexto sentido é o que nos mantém de pé.



Se você quer conferir o trabalho de um dos heróis sensórios anônimos do corpo, tente o seguinte: posicione o indicador alguns centímetros diante do rosto e o mova para frente e para trás em ritmo de uma ou duas vezes por segundo. O que você? Um dedo fora de foco. Agora, mantenha o dedo parado e mova a cabeça para frente e para trás ao mesmo ritmo. Nesse caso, o foco não se perde. O dedo fica nítido mesmo que a cabeça seja movida vigorosamente.

» Cérebro reduz visão para "ouvir melhor"
» Nariz é máquina do tempo emocional
» Fumo e obesidade podem prejudicar audição


E isso é uma vantagem. Caso o cérebro não fosse capaz de distinguir entre os movimentos do observador e daquilo que é observado, se a cada vez que a pessoa se virasse ou caminhasse pela sala o cenário saísse de foco, é provável que ela evitasse se mover, incerta diante de ameaças externas e sem a ajuda de uma bússola pessoal interna.

Uma parte essencial de nossa percepção de individualidade é o sistema vestibular, um conjunto duplo de pequenos órgãos sensores integrados aos ossos das têmporas, dos dois lados da cabeça, perto da cóclea, no ouvido interno. O sistema vestibular não é um sentido famoso e elitista como os famosos cinco - visão, audição, olfato, tato e paladar. É mais um sentidozinho comum, humilde, trabalhando de forma anônima e muitas vezes incompreendida. Até mesmo seu nome é fruto de um engano, porque os primeiros anatomistas consideram que ele apenas servisse como vestíbulo, ou entrada, para o ouvido interno.

A despeito de sua reputação humilde, o sistema vestibular recentemente conquistou fãs entre os neurocientistas, que admiram sua sofisticação e sensibilidade, bem como a maneira pela qual eles nos diz onde estamos e o que estamos fazendo, e seus sensatos conselhos sobre evitarmos as vergonhas sofridas quando tentamos andar de patins.

Eles elogiam a precisão de suas partes, a maneira pela qual o sistema vestibular descobriu as leis da mecânica newtoniana 400 milhões de anos antes de Newton e o uso que faz desses princípios para equipar nossa cabeça com pequenos giroscópios e aceleradores lineares orgânicos.

Como prova do prestígio ascendente do sistema vestibular, a primeira edição de Sensation and Perception, um conhecido manual universitário, em 2005 mal o mencionava, mas na versão revisada que sai este mês há um capítulo inteiro sobre o assunto no final do livro. "Não quero parecer ingrato", disse Daniel Merfeld, professor associado da Escola de Medicina de Harvard e especialista no sistema vestibular, responsável pelo capítulo. 'Portanto, estou grato por ele ter sido incluído agora".

Os médicos também estão aprendendo a identificar melhor os sintomas associados a um sistema vestibular disfuncional, e a distinguir entre diversos distúrbios diferentes que no passado eram todos classificados sob a rubrica Doença de Meniere. Um desses problemas é o Mal de Débarquement, que faz com que pessoas que tenham passado algum tempo a bordo de um navio, avião ou outro veículo em movimento ainda sintam esse movimento bem depois do desembarque.

A síndrome se tornou mais conhecida dada a popularidade dos cruzeiros marítimos, e embora a maioria dos episódios sejam curtos, há casos que duram meses ou anos, e vêm acompanhados pelo que os pacientes descrevem como "nevoeiro mental", uma sensação de retardamento de aprendizado tão debilitante que pode pôr fim a carreiras, relacionamentos e vidas.

O Dr. Yoon-Hee Cha, neurologista da Universidade da Califórnia em Los Angeles, diz que a doença continua misteriosa e difícil de tratar, "mas quero enfatizar que é mesmo uma doença e que os médicos não deveriam desconsiderar o que seus pacientes dizem sobre ela".

O sistema vestibular é antigo e está presente em todos os vertebrados, mas não é primitivo, e pode ter ganho importância maior entre nós do que para nossos ancestrais marinhos. Sua missão é calcular a posição da cabeça - e muitos planos estratégicos e sabedoria derivam disso. O bipedalismo de que tanto nos orgulhamos, por exemplo.

Quando nos levantamos e posicionamos tornozelos, coxas, torso e cabeça em configuração vertical estável, diz Merfeld, estamos inconscientemente equilibrando seis pêndulos - um feito que equivaleria a equilibrar seis lápis na palma da mão ao mesmo tempo.

O comando do bipedalismo cabe ao sistema vestibular, que avalia a posição da cabeça com relação ao solo e sinaliza ao cérebro que ajuste os demais pivôs. Se o sistema for prejudicado por, digamos, excesso de álcool, o sujeito começa a cambalear.

O sexto sentido serve de conduto entre sistemas sensórios. Ao acenar com a cabeça ou movê-la inconscientemente ao longo do dia, o sistema vestibular ordena que globos oculares compensem esse movimento e diz ao cérebro que não há causa de preocupação - é só a cabeça sendo antipática sempre: melhor interpretar os sinais visuais como se ela estivesse imóvel.

O aparelho vestibular é pequeno, transparente e pode ser difícil de localizar. "É basicamente uma cavidade no crânio, cheia de fluido e revestida de membranas", diz Merfeld. "Quase como se fosse a ausência de algo e não uma presença".

Mas o arranjo das membranas e fluidos é altamente estruturado, formando cinco órgãos sensórios distintos em cada cavidade do tamanho de uma ervilha. Três deles detectam motivos diagonais da cabeça, ao medir a discrepância entre os ângulos das membranas, afixadas aos ossos, e o fluido flutuante.

Os outros dois utilizam pequenas pedras de carbonato de cálcio que sobem e descem como falsos flocos de neve em um globo de vidro e assim detectam o efeito da gravidade e do movimento linear da cabeça - aquele que fazemos ao caminhar ou subir escadas, por exemplo.

Todas as cinco sentinelas transmitem as constatações que fazem ao cérebro da mesma forma, dobrando projeções semelhantes a bigodes de gatos em células de cabelo próximas, que traduzem os sinais mecânicos em impulsos elétricos que os neurônios podem decifrar.

Talvez seja hora de dar uma folguinha ao sistema vestibular. Por que não uma cerveja?

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
Fonte:www.noticiasterra.com.br

Estudar sozinho é possível: basta querer


busca por um emprego estável no funcionalismo público vem, muitas vezes, acompanhada da idéia de que apenas os candidatos que se preparam em cursinhos conseguem a vaga desejada. No entanto, a falta de recursos financeiros e tempo, principalmente, são fatores que afastam muitas pessoas das salas de aula e fazem possíveis candidatos desistirem de prestar o concurso por terem que estudar por conta própria.

Mas é possível conquistar uma vaga em concursos tão concorridos estudando sozinho? O juiz federal, professor e escritor, William Douglas, garante que sim. Expert na área de concursos públicos, ele afirma que basta observar o número de inscritos em cursinhos e dos aprovados nos processos seletivos para confirmar sua tese. “Muita gente que passa não fez o cursinho”, diz.

Douglas explica que freqüentar um curso preparatório é sempre válido, mas, se não for possível, a dica é não desanimar e buscar outras formas de estudo. “Ninguém desanime se não tiver tempo ou dinheiro para fazer os cursos. Se puder fazer, vale a pena, mas se não puder, estude em casa, usando os programas dos editais, a internet e o extenso material disponível atualmente em livros e apostilas. O que faz alguém passar é o esforço e dedicação; o cursinho é bom, mas não é um requisito totalmente indispensável”, comenta.

Para ele, a principal característica que essas pessoas devem ter para alcançar os objetivos é a força de vontade. “O ideal é somar motivação com preparação. Só motivação não resolve, mas só disposição, sem força de vontade, também não resolve. A pessoa que tiver força de vontade e disposição para estudar e treinar até estar preparado vai passar, com certeza. Costumo dizer que a diferença entre o sonho e a realidade é a quantidade certa de tempo e trabalho”.

Como estudar

Mas, segundo Douglas, estudar sozinho requer algumas características do candidato, como organização e empenho na busca de ferramentas que colaborarão com o estudo. “Aprender a se organizar e a estudar, ver todo o programa do edital e fazer muitos exercícios e simulados. É importante estudar a teoria e também fazer questões, onde se aprende a transmitir a teoria para o papel”, salienta.

Ele afirma que, nessa hora, é importante que a pessoa acredite em si mesma e que vale a pena estudar. “O futuro irá premiar quem se esforçar”, diz.

Para aqueles que buscam uma dose de motivação, Douglas recomenda que visitem seu site (www.williamdouglas.com.br) e vejam, gratuitamente, as dicas, aulas, vídeos e artigos sobre cada uma das fases de preparação.

Disciplina e prazer

Teixeira afirma que, para estudar sozinho, é fundamental que o candidato tenha disciplina. Mas não apenas isso. Deve também gostar daquilo que está fazendo. “Acho que para tudo na vida é necessário ter disciplina. A disciplina caminha junto com o sucesso. No entanto, mesmo sendo disciplinado, é necessário sentir prazer em estudar, gostar daquilo que se estuda, pois a disciplina é perdida quando se estuda por obrigação e não por gosto”.

Para ele, o ponto positivo de não freqüentar cursinhos é que o candidato pode determinar suas regras, como quanto e como estudar, mas por outro lado, não há, também, a cobrança e o incentivo dos professores e da equipe dos cursos, o que, para aqueles que não têm disciplina, pode ser prejudicial. “Para mim deu certo, mas acho que esta não é uma maneira aplicável a todas as pessoas”, confirma.

Teixeira finaliza dizendo que o ponto fundamental para o sucesso dos estudos é a escolha de uma área que agrade. “Quando nos interessamos por algum assunto específico, geralmente temos curiosidade em pesquisá-lo, e esta curiosidade é que motiva a continuidade dos estudos”, complementa.

Juliana Pronunciati

Fonte:http://jcconcursos.bol.uol.com.br