Manifesto em repúdio a uma reportagem publicada pela revista Veja.
Por: Eduardo Cruz Filho)O livro “Educação e emancipação” do filósofo alemão Theodor W. Adorno traz um capítulo intitulado “Educação após Auschwitz”. Trata-se de um ensaio no qual o autor observa algumas condições indispensáveis para que evitemos a reedição de barbáries como aquelas ocorridas em Auschwitz e noutros campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.
De acordo com Adorno, um dos fatores que possibilitou a ocorrência daqueles terríveis acontecimentos foi, por assim dizer, a perda de identidade por parte dos algozes. Ou seja, foram pessoas que se enquadraram “cegamente em coletivos” convertendo-se “a si próprios em algo como um material, dissolvendo-se como seres autodeterminados. Isto combina com a disposição de tratar outros como sendo uma massa amorfa.”
“O único poder efetivo contra o princípio de Auschwitz seria autonomia, para usar a expressão kantiana; o poder para a reflexão, a autodeterminação, a não-participação.”
Nesse sentido — o da construção de seres autônomos, reflexivos — há, felizmente, inúmeras iniciativas docentes despontando aqui e ali. O que se percebe nesses casos é um fazer pedagógico diferente, é uma mudança de postura que está deslocando a educação, como escreveu Eliana Yunes, “das verticalidades para as horizontalidades, do assertivo para o performativo, da subordinação para a coordenação”. Trata-se, é bom lembrar, de algo que, em certa medida, há 30 anos já permeava o discurso de um educador do porte de Paulo Freire.
É de Paulo Freire a citação abaixo, retirada do texto “Fazer a Ponte” do educador José Pacheco, que compõe o livro “Escola da Ponte: um outro caminho para a educação”:
“Se trabalho com crianças, devo estar atento à difícil passagem ou caminhada da heteronomia para a autonomia, atento à responsabilidade da minha presença que tanto pode ser auxiliadora como pode virar perturbadora da busca inquieta dos educandos.”
Foi sobre essa educação consciente, preocupada com as responsabilidades do professor, voltada para uma formação sólida dos discentes, que Paulo Freire tratou durante toda sua vida. Por isso, até hoje “figura entre as mais acatadas personalidades no campo da Pedagogia.” Por isso, “seus livros são regularmente editados nos principais países do mundo ocidental [...]”. Por isso, “pronunciou conferências em inúmeras escolas dos Estados Unidos, em diversas Universidades da Europa e em vários países da África.”
Por todas essas razões, quando um educador diz que se identifica com Paulo Freire, o momento deve ser de júbilo, ou, pelo menos, deveria sê-lo. Mas, infelizmente, não é isso que acontece.
No dia 20 de agosto de 2008 a revista VEJA publicou uma reportagem (página 72) com o seguinte título: “Você sabe o que estão ensinando a ele?”.
A matéria apresenta e discute uma pesquisa que fora encomendada pela própria revista e cujos resultados, de acordo com sua visão antolhada, “traduzem em números” a “mediocridade” do sistema escolar brasileiro.
Para as autoras da reportagem, um dos responsáveis pela chegada da educação brasileira a esse patamar é — pasme — Paulo Freire. É isso mesmo! O mesmo Freire que vislumbrou uma educação escolar capaz de caminhar na direção de uma formação autônoma, como desejava Adorno, é o mesmo que, segundo essas “profissionais”, anda inspirando as práticas pedagógicas atuais voltadas à “doutrinação esquerdista”. Vamos examinar como as brilhantes jornalistas chegaram a essa conclusão.
Segundo a matéria da VEJA, a pesquisa procurou saber, dentre outras coisas, “qual é a principal missão da escola” na opinião dos professores, pais e alunos. Os sujeitos puderam escolher entre estas alternativas: “Formar cidadãos”, “Contribuir para a formação profissional” e “Ensinar as matérias”. Para 78% dos professores a principal missão da escola é “formar cidadãos”. Esse resultado — pasme mais uma vez — é por conta do legado de Paulo Freire.
É possível “contribuir para a formação profissional” sem “ensinar as matérias”? É possível “formar cidadãos” sem “contribuir para a formação profissional”? Por maior que seja a boa vontade, como dar crédito a uma publicação dessas? Quem, em sã consciência e com alguma visão crítica — a mesma defendida por Freire — formularia uma questão desvinculando as três alternativas citadas? Ninguém.
A leitura daquela matéria, portanto, evidencia tão somente o esforço repugnante de uma entidade reacionária no sentido de trabalhar a favor da recuperação de um sistema comprovadamente pernicioso, especialmente, à educação.
Fonte:http://www.caminhosdalingua.com/textos_nossos_002.php