Outubro 21, 2009

Porque o povo não lgosta de ler?



A aversão dos brasileiros aos livros tornou-se algo tão evidente que já está cristalizada na imagem do Brasil lá fora, chegando ao ponto de virar assunto da edição de março de 2006 da influente revista britânica "The Economist" (FOLHA, 2009), que utilizou para a matéria o título "Um país de não-leitores". A indiferença dos brasileiros pelos livros tem raízes profundas. Séculos de escravidão levaram os líderes do país (colonizadores portugueses) a negligenciar a educação. Já em tempos de República, com o golpe de 1964, tanto a escola quanto o professor perderam o seu prestígio sob o jugo da ditadura, ficando a área da Educação com direito a apenas 1% do orçamento da União. A escola primária só se tornou universal, no Brasil, na década de 90. O rádio era uma presença constante já nos anos 30. As bibliotecas e as livrarias ainda não conseguiram alcançar a universalidade e a velocidade da mídia. Tais fatos demonstram que a tradição da leitura no Brasil sofreu grandes golpes ao longo de sua história, desde os primórdios da formação de nossa nação. Mas o melhor espelho da situação da leitura em nosso país é a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em maio de 2008 pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). Encomendado pelo Instituto Pró-Livro (IPL) e realizado pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), o estudo ouviu 5.012 pessoas em 311 municípios brasileiros durante os meses de novembro e dezembro de 2007, representando 172 milhões de pessoas (92% da população), e considerando como "leitor" indivíduos que leram ao menos um livro nos últimos três meses.
A pesquisa revelou que 48% dos brasileiros (quase metade da população) não eram leitores, ou seja, não haviam lido nenhum livro no período indicado. Destes, 33% não liam por que eram analfabetos e 37% deles tinham até a quarta série (idade em que as práticas de leitura ainda não estão consolidadas, evidenciando o problema da evasão escolar precoce), dados que denunciam como um dos principais problemas a falta de acesso à escola e a fragilidade das políticas governamentais e dos investimentos em Educação. Segundo a pesquisa, o brasileiro lê cerca de 4,7 livros por ano, e as mulheres lêem mais que os homens, lendo 5,3 contra 4,1 livros por ano, o que corresponde a menos que a metade da média na Europa e EUA.
Mas as informações relativas à "dificuldades de leitura" remetem que há problemas a serem resolvidos também na escola, pois 42% dos leitores apresentavam algum déficit decorrente de má formação das habilidades de leitura (um problema relacionado ao processo educacional), dentre os quais 17% liam devagar, 7% não compreendiam o que liam, 11% não tinham paciência de ler e 7% não conseguiam concentrar-se na leitura. Já quanto aos "motivos para não ler", 54% alegaram falta de tempo, 34% terem outras preferências e 19% não interessar-se, enquanto 18% alegou também falta de dinheiro e 15% falta de bibliotecas. Assim, 33% dos não-leitores não lêem por falta de acesso real aos livros e 53% por desinteresse pela leitura, vindo à baila a questão do baixo poder aquisitivo e da inexistência do esforços de fomento à leitura. Outra informação relevante da pesquisa é que, no Brasil, a leitura não é culturalmente valorizada: 86% dos não-leitores nunca receberam um livro de presente na infância e 55% deles nunca viram seus pais lendo. Apenas 35% dos brasileiros entrevistados declararam gostar de ler em seu tempo livre.
Desta forma, se constatamos que há falta de acesso à escola, aos livros, políticas educacionais ineficazes, falta de investimento em Educação, falta de formação do professor de português para preparar leitores e condições sócio-econômicas e culturais desfavoráveis à prática da leitura na sociedade brasileira, tristemente só nos resta concluir que "o brasileiro não gosta de ler porque é educado para isso".


Por Emanuel Eduardo Tenório de Barros Filho (Universitário da área de Enfermagem).